Título
do Artigo: A dança reinventando a imagem no corpo
Autor ou Fonte: Flávio Soares Alves e Marília Vieira Soares
INSTITUTO
DE ARTES - PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
Resumo
Dança
é a escrita do movimento poético no espaço. Esta
inscrita forma imagens de movimento que estão subordinadas a
intenção do poeta, mas que, ao mesmo tempo, se projetam
autônomas na sua plasticidade. Como o processo criativo lida com
esta dual perspectiva da imagem?
Palavras-chave: corpo; imagem; poeta-esteta; relação energética
Abstract
Dance is
the writing of the poetical movement in the space. When a body dances,
it writes movement images that are subordinated the artist intention,
but that, at the same time, are projected autonomous in its plasticity.
How the creative process works with this perspective dual of the image?
Word-key: body; image; artist - spectator; energy relation
Dados sobre
os autores
Flávio
Soares Alves: Mestrando em Artes pelo programa de pós-graduação
do Instituto de Artes da Unicamp. Formado em Educação
Física pela Unesp de Rio Claro. Sua linha de pesquisa concentra-se
na investigação da dança no corpo, verificando
as diversas implicações destes campos de pesquisa. Contato:
flavio_salves@iar.unicamp.br
Marília Vieira Soares: Dra. Em Educação pela Faculdade
de Educação Da Unicamp; professora dos cursos de graduação
em Artes corporais e do curso de mestrado em Artes no IA da Unicamp.
Diretora do Grupo Ar cênico da mesma instituição.
Contato: mvsoares@iar.unicamp.br
Introdução
Quando
se observa o corpo na dança, a poética desta inscrita
gestual no espaço aguça o olhar do esteta, ampliando sua
captação visual para campos perceptivos que verificam
mais do que mera composição articulada de movimentos,
em meio a esta inscrição linear.
O estado de transe, que consome a atuação do intérprete,
se projeta para além de seu espaço pessoal e alcança
o olhar do esteta, alterando sua percepção. O poeta do
corpo faz da articulação motora uma plasticidade cênica
e instiga o esteta, neste movimento, a adentrar nesta alucinação
artística junto com ele. Poeta e esteta estão ligados
um ao outro por este canal perceptivo, aberto à imaginação
criativa. As imagens de movimento tecem esta tênue ligação
no discorrer cinemático desencadeado pelo intérprete na
performance e arrebatam os sentidos do esteta, numa súbita suspensão
do entendimento.
Como desdobramento desta ligação momentânea, quando
o esteta se dá conta do que está acontecendo, ele vê
a imagem motora como manifestação expressiva e por esta
via, já nos domínios do entendimento e não da arte
em si, só lhe resta a lembrança motora que deu forma à
dança. As imagens dinâmicas da imaginação
criativa se unificam numa estrutura de imagem, formando uma possibilidade
de representação.
O gesto expressivo é uma possibilidade de representação
que se inscreve referindo-se a uma atividade interna pulsante no limite
entre o físico e o psíquico. O resultado é uma
imagem de movimento, ou seja, uma estrutura imagética corporificada,
que só é como tal, na sua relação eventual
com um sentido. "O material é dominado pela intenção
do poeta" (JUNG, 1991, p. 62).
A imagem, portanto, é a unificação de um sentido
numa estrutura plástica, isto é, num símbolo. Este
sentido, não se dá na visibilidade sem antes ser mobilizado
na atividade psicológica do corpo, sua percepção
está além de nossa capacidade de compreensão e
só se completa, num duplo movimento do olhar que vê a imagem
como objeto, na sua materialidade, e a imagem como intensidade expressiva
eventual. O sentido, assim como a imagem, é produto de interpretação,
que reduz o poema a uma especulação lógica (JUNG,
1991).
Há, portanto, uma bivalência da imagem no corpo: ser efeito
de um processo criativo que interliga poeta e esteta numa relação
artística e ser imagem arbitrária na sua redução
especular, isto é, ser unidade objetal, uma forma espaço-temporal,
portanto, passível de reprodução e sistematização.
A dança não foge desta dualidade e o artista encontra
nesta bivalência, um alimento inesgotável de estimulação
do seu fazer artístico. O processo de criação da
dança é o processo deste constante ultrapassamento da
imagem no corpo. Nos interessa verificar como o artista mobiliza estes
processos, mediante tendências imperativas, representadas por
imagens ideais descorporificadas, para a promoção de um
processo criativo que dilui a força estrutural da imagem, dando
vazão a um escoamento infinito de imagens à espera de
codificação no corpo.
"É
que Narciso acha feio o que não é espelho..."
No momento
em que qualquer imagem acontece no corpo, o próprio fato de se
efetuar já a unifica como objeto concreto. Esta unificação
é um esforço do entendimento em organizar os perceptos
captados pela visão. Neste processo, a imagem é codificada
e aponta para um sentido que justifica sua efetuação.
O sentido, portanto, não é inerente a obra, mas é
efeito de interpretação da obra.
A imagem codificada tem peso de lei, sua força representacional
é cristalizada nesta aparência imagética, para que
esta aparência sirva como modelo estrutural na codificação
desta imagem em outros corpos. Esta codificação, portanto,
não se dá como efeito de linguagem - que relaciona gestos
e afetos - mas por agenciamento orgânico, isto é, como
recurso funcional que opera a articulação das imagens,
mediante uma determinação registrada como código
idealizado.
Esta codificação é resultado da necessidade de
um intelecto faminto por sentidos, que reduz uma experiência a
imagens, para que a ação possa ser conhecida, mesmo que
de forma unilateral (JUNG, 1991). Todavia, esta racionalização
abstrai a corporeidade, negando a consciência real que se faz
no corpo.
Para Nietzsche, a primeira consciência do homem é corporal,
é a partir dela que o homem constrói sua realidade. Prescindir
desta dimensão é alienar-se da corporeidade (apud. SOARES,
2000).
Nesta dimensão de alienação, a imagem é
uma reconstrução oca, seduzida por sua própria
aparência, e só retomada devido à atração
instigante desta aparência idealizada.
Os ideais de beleza são exemplos desta aparência instigante,
que se sustentam a partir de convenções ditadas socialmente,
e que reverberam em nós, como imperativos que tentam determinar
nossa visão de mundo, como se a imaginação pudesse
ser subvertida por este imperialismo alienante. Para tanto, a sociedade
reproduz pré-concepções e discriminações
que de tão intensas, já não estão do lado
de fora - no social - mas também dentro do corpo, como um desejo
pulsante, que anseia pela imagem ideal.
O individuo passa a perseguir estes ideais e recebê-los como seus,
para a fortificação da ditadura de uma imagem, que faz
uso do corpo para acentuar o processo de descorporificação,
tão intensamente promovido na sociedade icônica1. Esta
descorporificação se alastra corroendo os sentidos, para
a promoção do suporte real da imagem, como se a imagem
pudesse se sustentar sem substancialidade, só por sua aparência
e sedução estrutural.
O ônus desta perseguição alienada maltrata o corpo
e, não raro, o leva a afecções patológicas,
como a bulemia, a anorexia e uma infinidade de outros distúrbios
de origem nervosa - além de outras disfunções físicas
e psicológicas - que mortificam a carne, em função
desta busca alienada.
A alienação ofusca o olhar com a promessa de um ideal
possível, impresso numa imagem eleita. O corpo da imagem se hipertrofia
de tal forma, que os efeitos desta imagem no corpo tendem a ser oclusivos,
isto é eles tendem a fechar outros canais perceptivos, para que
o corpo opere somente neste nível de percepção,
preocupado com a imagem ideal e com a capacidade funcional do corpo
em produzir tais imagens determinadas no âmbito social.
Sob este olhar, o corpo é visto como máquina e o seu fazer
se reduz à execução de ordens não próprias
do corpo, mas nele instaladas, para o funcionamento de algo maior que
tenta subjugá-lo. Nesta perspectiva, os fazeres humanos só
se justificam se fazem função a algo. No entanto, esta
visão funcionalista não explica plenamente a existência
humana, nem poderia, do contrário não haveria homens,
nem mulheres, mas autômatos e mesmo assim, é preciso a
ação de uma mente criativa, não plenamente funcional
e determinada, mas, antes disto, inventiva e espontânea que possibilite
a existência deste artifício.
O corpo, portanto, se relaciona com o real não só em função
de algo, mas como movimento original de recriação deste
algo. É neste movimento que nasce a experimentação
estética como possibilidade de re-construção da
imagem no corpo, para que a imagem não faça função
a algo, mas seja um fim em si mesma. Este fim se realiza a cada nova
insurreição criativa, a cada nova possibilidade tornada
evento concreto.
Todavia, para que isto aconteça, é preciso alterar a relação
do corpo com a imagem, dando vazão à relação
entre corpo e imagem na implicação psicofísica
deste processo relacional, do contrário não se faz arte,
mas se produz ideais estéticos.
A reinvenção
da imagem no corpo
O artista
rompe com este processo quando abre a possibilidade de transformar a
imagem na efetuação desta no corpo por ela acometido.
Nesta implicação, a aparência superficial da imagem
se dilui e a beleza que afeta, já não é mais mera
forma, mas intensidade em projeção mórfica.
Nestes parâmetros, o corpo funcional é ultrapassado para
a promoção de outros domínios, que dão vazão
ao potencial de re-constituição da imagem no corpo, deixando
para trás aquela noção de corpo determinado, incapaz
de reagir contra o poder hipnotizante da imagem ideal imposta.
Sem o véu da imagem ideal, percebe-se que a relação
entre corpo e imagem transcende as dimensões palpáveis
e alcançam outros estados. Este alcance tangencia as dimensões
do inconsciente, ampliando as potencialidades de re-significação
da imaginação (campo de negociação simbólica
do sujeito com o mundo) na ação de um sujeito do inconsciente,
que atua na revelia do Ego.
Esta atuação, diria Jung, é resultado das motivações
de um corpo frente às demandas de uma imagem primordial, ou arquétipo,
que retorna na vazão da imaginação criativa, numa
transcrição mutável a cada novo investimento imagético.
As imagens desencadeadas são costuradas umas as outras por uma
ressonância arquetípica que, na visibilidade da imagem,
enxergam, não mais que o esboço de uma imagem primordial,
daí o infinito escoamento das imagens, pois esta imagem primeira
só se apresenta na sua plenitude como promessa de vir a ser (JUNG,
1991).
A dança é um dos canais no qual este processo de escoamento
pode ser efetuado. O processo da dança é um ensaio criativo,
no qual, os gestos vão eclodindo no espaço, num mínimo
diferencial entre estados internos e atitudes corporais eventuais. Na
medida em que a imagem de movimento vai tomando corpo, este diferencial
se amplia e a expressão vai se tornando orgânica. Quanto
mais cristalizado esta expressão no corpo, mais frágil
a ligação da imagem de movimento com o estímulo
interno original - arquétipo - que deu início a esta formalização.
Assim, o gesto expressivo se desenvolve já consciente de que
não é mais que um esboço da expressividade, sua
referência a algo interno em projeção é sempre
limitada.
A expressividade do gesto é sempre uma imagem especular, efeito
de tradução de uma imagem no corpo que se estende, enquanto
fenômeno, numa estrutura de imagem, que insiste em se re-estruturar
a cada novo investimento da imaginação.
A subversão
da imagem na ação da arte performática
O processo
de formalização de uma imagem no corpo é sempre
singular a cada novo processo. O contorno deste lapidar revela um produto
que já não é mais a obra de arte em si, mas uma
especulação racional, resultado de uma interpretação.
A síntese do sentido se dá tanto na visão do esteta,
que contempla, como na atuação do intérprete, que
presentifica a expressão corporal na sua performance. Todavia,
no que tange a performance esta síntese é sempre re-significada
no constante retorno ao processo criativo, como alimento infinito de
esboços de imagens. Já na visão do esteta, a imagem
não tem alternativa, a não ser se apresentar como produto
(representação) que se dilui na perene impressão
temporal.
A forma é algo concreto, cabe plenamente nas dimensões
visíveis e se oferece como produto na sua superficialidade. Quando
a imagem de movimento irrompe, ela traz consigo uma intensidade expressiva,
mas após este evento, só resta a imagem impressa no enquadramento
formal. Só contemplamos a profundidade da imagem no ato performativo,
ou seja, no momento espaço-temporal em que a imagem se efetua
no corpo.
No ato da performance, o artista é sujeito e objeto de sua arte,
o corpo se torna a própria obra, o processo e o produto são
coincidentes na emergência do evento. O performer desloca o valor
da obra para o momento de criação, rompendo com a representação
elaborada e valorizando a expressão cênica em sua relação
espaço-tempo (Cohen, 1989).
Neste momento perene e irredutível, a dança ainda não
é imagem estruturalizada, mas é plena intensidade emocional
em enunciação. O gesto é a própria coisa
que quer enunciar, daí seu caráter luminoso e inefável.
Na medida em que o entendimento interfere nesta percepção
performática, a imagem vai sendo unificada e a expressão
vai sendo impressa nas vias da estrutura formal.
A visão latente do ato performativo é a alma da obra de
arte, nela cabem tudo o que ainda não foi reduzido pelo entendimento.
Sua vazão é perene, sua percepção visualiza
o que vem a ser depois da ação, mas que no estar sendo,
só é o que é, sem qualquer referência anterior.
O poema gestual se projeta autônomo na sua plasticidade performática.
A forma gestual é recurso de linguagem e não foco central
de verificação, ou seja, a obra tomou corpo através
daquela forma, mas a forma, por si só, não basta para
satisfazer as demandas da expressividade, para isto é preciso
um escoamento infinito de novas imagens que nunca bastam por si mesmas,
a não ser enquanto possibilidade materializada. É daí
que vem o estímulo atraente que mobiliza o artista a compor,
pois a possibilidade criada não é suficiente para satisfazer
as demandas pulsantes que lhe deram origem. Este estímulo original
de criação sempre sobra, assim, a cada nova obra, esta
sobra estimula novo investimento imagético, num processo sem
fim, instigado por uma promessa de vir a ser, que nunca será,
mas que se apresenta como um possível ser a cada novo investimento.
O artista se alimenta desta demanda para dar vozes a sua arte.
A arte subverte a sociedade icônica e aponta para uma prospecção
que adianta a percepção para um vir a ser sempre postergado,
garantindo assim o potencial de re-significação da imagem
no corpo.
Isto só é possível quando o artista desloca sua
percepção para um domínio criativo forjado no desarranjo
da faculdade racional, como agenciamento não orgânico,
ou seja, como processo não redutível a um sistema de operações
lógico-funcionais. Este deslocamento é o canal de ligação
do esteta com o poema do artista. Nesta sintonia, é como se outra
forma de vida abordasse a existência orgânica, sem os domínios
do corpo racional e sintético e promovesse a construção
de um corpo que tende a não-identidade, sempre em projeção
mórfica.
Referências Bibliografia
COHEN,
R. Performance como Linguagem: criação de um espaço-tempo
de experimentação. São Paulo, Perspectiva; USP,
1989.
ECO, U. A esturtura ausente: introdução a pesquisa semiologica.
São Paulo: Perspectiva, 2001.
JUNG, C. G. O espírito na arte e na ciência. Petrópolis,
R.J.: Vozes, 1991.
SOARES, M. V. Técnica energética: fundamentos corporais
de expressão e movimento criativo. Campinas, SP: Unicamp, 2000.
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