A escolha do seu par
Artigo da Veja
- Ponto de vista: Stephen Kanitz
"Nos bailes, as mulheres faziam um verdadeiro teste psicológico,
físico e social de um futuro marido e obtinham o que poucos testes psicológicos
revelam".
Há trinta anos, os adolescentes encontravam o sexo oposto em bailes de salão
organizados por clubes, igrejas ou pais responsáveis preocupados com o sucesso
reprodutivo de seus rebentos. Na dança de salão o homem tem uma série de obrigações,
como cuidar da mulher, planejar o rumo, variar os passos, segurar com firmeza
e orientar delicadamente o corpo de uma mulher. Homens levam três vezes mais
tempo para aprender a dançar do que mulheres. Não que eles sejam menos inteligentes,
mas porque têm muito mais funções a executar. Essa sobrecarga em cima do homem
permite à mulher avaliar rapidamente a inteligência do seu par, a sua capacidade
de planejamento, a sua reação em situações de stress. A mulher só precisa
acompanhá-lo. Ela pode dedicar seu tempo exclusivamente à tarefa de avaliação
do homem.
Uma mulher precisa de muito mais informações do que um homem para se apaixonar,
e a dança permitia a ela avaliar o homem na delicadeza do trato, na firmeza
da condução, no carinho do toque, no companheirismo e no significado que ele
dava ao seu par. Ela podia analisar como o homem lidava com o fracasso, quando
inadvertidamente dava uma pisada no seu pé. Podia ver como ele se desculpava,
se é que se desculpava, ou se era do tipo que culpava os outros.
Essa convenção social de antigamente permitia ao sexo feminino avaliar numa
única noite vinte rapazes entre os 500 presentes num grande baile. As mulheres
faziam um verdadeiro teste psicológico, físico e social de um futuro marido
e obtinham o que poucos testes psicológicos revelam. Em poucos minutos conseguiam
ter uma primeira noção de inteligência, criatividade, coordenação, tato, carinho,
cooperação, paciência, perseverança e liderança de um futuro par.
Infelizmente, perdemos esse costume porque se começou a considerar a dança
de salão uma submissão da mulher ao poder do homem, porque era o homem quem
convidava e conduzia a mulher.
Criaram o disco dancing, em que homem e mulher dançam separados, o homem não
mais conduz nem sequer toca no corpo da mulher. O som é tão elevado que nem
dá para conversar, os usuais 130 decibéis nem permitem algum tipo de
interação entre os sexos.
Por isso, os jovens criaram o costume de "ficar", o que permite a uma garota
conhecer, pelo menos, um homem por noite sem compromisso, em vez de conhecer
vinte rapazes numa noite, também sem compromissos maiores.
Pior: hoje o primeiro contato de fato de um rapaz com o corpo de uma mulher
é no ato sexual, e no início é um desastre. Acabam fazendo sexo mecanicamente
em vez de romanticamente como a extensão natural de um tango ou bolero. Grandes
dançarinos são grandes amantes, e não é por coincidência que mulheres adoram
homens que realmente sabem dançar e se apaixonam facilmente por eles.
Masculinizamos as mulheres no disco dancing em vez de tornar os homens mais
sensíveis, carinhosos e preocupados com o trato do corpo da mulher. Não é
por acaso que aumentou a violência no mundo, especialmente a violência contra
as mulheres. Não é à toa que perdemos o romantismo, o companheirismo e a cooperação
entre os sexos.
Hoje, uma garota ou um rapaz tem de escolher o seu par num grupo muito restrito
de pretendentes, e com pouca informação de ambas as partes, ao contrário de
antigamente.
Eu não acredito que homens virem monstros e mulheres virem megeras depois
de casados. As pessoas mudam muito pouco ao longo da vida, na realidade elas
continuam a ser o que eram antes de se casar. Você é que não percebeu, ou
não soube avaliar, porque perdemos os mecanismos de antigamente de seleção
a partir de um grupo enorme de possíveis candidatos.
Fico feliz ao notar a volta da dança de salão, dos cursos de forró, tango
e bolero, em que novamente os dois sexos dançam juntos, colados e em harmonia.
Entre o olhar interessado e o "ficar" descompromissado, eliminamos infelizmente
uma importante etapa social que era dançar, costume de todos os povos desde
o início dos tempos.
Se você for mãe de um filho, ajude a reintroduzir a dança de salão nos clubes,
nas festas e nas igrejas, para que homens aprendam a lidar com carinho com
o corpo de uma mulher.
Se você for mãe de uma filha, devolva a ela a oportunidade que seus pais lhe
deram, em vez de deixar sua filha surda, casada com um brutamontes, confuso
e insensível idiota.
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