Aplausos ao MOTIF!

Autor: Ana Lígia Trindade
Aplausos ao MOTIF! : utilizando a notação do movimento na composição coreográfica

No palco, em cena... o MOTIF! Acetatos com notações são apresentados, representados e interpretados, como principal apoio de composição a cerca dos poemas de Quintana no espetáculo “Outros Quintanas”. O uso da notação, não apenas como registro de uma coreografia, mas sim como o centro da composição coreográfica.
A descrição do motif é um tipo "de descrição estrutural simplificada" - você escreve somente o que você considera importante. Você poderia escrever, por exemplo, um tipo de movimento dirigido para frente sem dizer se você rastejasse ou saltasse. A descrição Esforço-Forma é usada para gravar o índice de energia de um movimento. É um subconjunto e uma “reconcepção” de Labanotation que compartilham de um lexis comum. A diferença principal entre os dois formulários é o tipo de informação que gravam. O Motif descreve os elementos mais importantes, os aspectos essenciais da seqüência do movimento. Muitos dos símbolos são os mesmos embora a estrutura e a gramática são ligeiramente diferentes. A descrição do motif é usada freqüentemente como uma alternativa ao Labanotation, quando a informação necessita ser escrita rapidamente.
Neste ano de 2007 decidi, através do Curso de Especialização em Dança da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, fazer uma investigação sobre notação do movimento. É, na verdade, um assunto que venho estudando e explorando há bastante tempo. Em um certo momento senti necessidade de anotar algumas seqüências coreográficas para que pudesse bem mais tarde recuperá-las e passá-las à um grupo de bailarinos. Nesse momento um colega de dança se colocou à minha disposição para ajudar nesta empreitada. Enquanto ele mesmo fazia as anotações, se questionava se já não existia tal simbologia. Nossas indagações a respeito da notação coreográfica tiveram início em 1993. Hoje estamos investigando o conhecimento e a utilização de notações do movimento pelos coreógrafos profissionais, atuantes na cidade de Porto Alegre. Já imaginando que não teríamos nenhum coreógrafo que realmente tivesse utilizado tal ferramenta para apoio na criação coreográfica ou para registro de sua obra,!
iniciamos nossa investigação com entrevistas aos profissionais da área. Surpresa a nossa ao entrevistarmos Cibele Sastre. Encontramos em seu trabalho uma nova proposta de utilização da notação. Não poderíamos deixar de assistir seu trabalho e conversar com seus bailarinos.
Inspirado em nove poemas de Mario Quintana, o espetáculo de dança “Outros Quintanas” foi idealizado pelo Grupo de Risco (um grupo dos estudantes do curso de Dança da Universidade do Estado de Rio Grande do Sul - UERGS) e contemplado com o prêmio Klauss Viana, da Fundarte. A montagem trabalha com uma nova maneira de ver a dança e tem como base a utilização da notação de movimento em partituras simplificadas. A diretora Cibele Sastre acredita que esta cultura vinda do Sistema Laban, chamada Motifs, ajude a conduzir o processo de criação e composição da obra.
E através dos poemas de Mario Quintana que se dá esta construção de um texto em palavras, em uma coreografia de movimentos. Cada poema tem seu Motif e cada Motif traz uma nova possibilidade de gestual. Os bailarinos não são apenas intérpretes dos poemas. Eles também se tornam criadores dos movimentos em cena, gerando assim um senso de apropriação do material pesquisado e proporcionando ao público um diálogo mais próximo com o poema.
O Grupo já havia feito trabalho semelhante em 2006 em “Reconhece?”. Fernandes (2006) comenta que “Reconhece? atravessa fronteiras entre arte e cotidiano através do movimento".

"A (não-)dança de Reconhece? está na tal “simples naturalidade” dos movimentos, como se nunca tivessem feito uma aula de dança e, justamente por isso, fossem capazes de dançar. Em Reconhece?, todos os movimentos “dançados” pelos bailarinos poderiam tranqüilamente ser feitos por qualquer um de nós do público. Não são movimentos de exclusão técnica. No entanto, para sua execução, os bailarinos aprenderam uma dinâmica fundamental: aquela entre corpo e escrita, movimento e notação. Esta conexão entre ação e cognição torna os movimentos intrigantes, pois vemos que todos fazem algo de similar e conectado entre si, mas cada um o faz da sua maneira. Ou seja, mesmo que a notação seja semelhante para todos, ou que se alterne entre um e outro dependendo do momento, cada corpo reescreve estes traços de ausência em um novo texto dançado que é simultaneamente pessoal e integrado no seu com-texto" (FERNANDES, 2006, p. 9).

Às vezes, no entanto, para Fernandes (2006), um ou outro bailarino parece tão preocupado em agir conforme a notação (“dançar conforme a música”), que parecia seguir ordens, fazendo as ações como em uma série programada sem repouso.
Contudo, “Outros Quintanas” não peca em sua proposta. O grupo apresenta um trabalho com o Motif muito mais maduro. Nesta obra se identifica a ligação da notação com os poemas de Quintana e as movimentações dos bailarinos. Cibele Sastre explica, “esta forma simplificada de grafia para movimento, semelhante a uma partitura musical, nos dá motivos para atravessar linguagens entre a palavra escrita, o corpo em movimento e sua expressividade, e as diversas imagens que emergem de tudo isso”.

"Dançar com esses elementos partindo da idéia de Mesma Coisa – várias interpretações para um mesmo Motif – e de poemas – emergência de idéias e imagens – nos fez transitar por outras descobertas e um aprofundamento, deixando-nos fluir com mais intensidade pelos eixos da fruição.Quintana vem sendo, cada vez mais, um parceiro neste maravilhoso aprendizado" (SASTRE, 2007).

Os bailarinos do Grupo de Risco abraçaram a idéia com postura profissional. Muito estudo, muito trabalho, muito entusiasmo. “As possibilidades que a notação dá para um mesmo símbolo, de ser interpretado por diferentes pessoas, me encanta e me estimula a cada vez mais pesquisar no meu corpo esse leque de criatividade”, nos diz Carol Laner. “Tem sido um processo desafiador e encantador trabalhar com poesia e Motif”, expressa Luiza Moraes. E continua: “é lindo ver nascer no corpo do outro uma leitura específica e muito pessoal de cada elemento, e ver tudo isso se misturando e se transformando no corpo do grupo”. Maria Albers descreve:

"Uma expressão alemã: Wer die Wahl hat, hat die Quall. A expressão carrega o conflito do que para mime compor através de motifs. Você tem inúmeras possibilidades, tendoi que optar por apenas uma entre tantas, e ainda lidar com o fato de que se outra escolha tivesse sido feita, todo o processo mudaria. Cada escolha é sempre uma grande escolha. Cada escolha carrega o enigma do resultado final. Que cara tem, terá ou teria a seqüência de movimentos que está sendo criada? Quando afinal ele ganha uma cara? Como lido com o desejo a prioridade de elaborar tais ou tais sentidos? A cada escolha, um processo dialético de restrição e aumento de possibilidades" (ALBERS, 2007).

Genial! Os corpos apresentam os poemas através da notação. Fundamental ter investigado este trabalho. Maravilhoso o resultado, não só no palco, mas nos perfis artísticos de cada bailarino. Reverências á Cibele Sastre! Aplausos ao Motif!

REFERÊNCIA:
FERNANDES, Ciane. AtraveRsando Corpos: Dança e Contemporaneidade no Evento Conexão Sul 2006. Revista Digital Art&, ano 4, n. 6, out. 2006.

FERNANDES, Ciane. O corpo em movimento: o sistema Laban/Bartenieff na formação e pesquisa em artes cênicas. São Paulo: Annablume, 2002.

HANNA, Judith Lynne. A linguagem da dança. 2002. Disponível em: < http://www.rio.rj.gov.br/centrocoreograficodorio/ensaios002.html> Acesso em: 10 out. 2006.

INTITUTO DE LABAN/BARTENIEFF DE ESTUFOS DO MOVIMENTO Lins Online New York, 2000 Disponível em: <http://216.109.124.98/language/index2.html> Acesso em: 29 nov. 2006.

Lígia Trindade - Bibliotecária formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuando na Biblioteca Martinho Lutero da Universidade Luterana do Brasil (Canoas-RS). Pós-graduanda do Curso de Dança da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Bailarina, coreógrafa e professora de Dança Clássica no Espaço ArtMóbile (Canoas-RS) e ComPasso (Gravataí-RS). ligia@ulbra.br / altrin@bol.com.br / 99624648