RITOS DO EXISTIR: CORPORALIDADE NO DISCURSO LITERÁRIO

Aguinaldo Moreira de Souza [1]

 

            Como obras de arte, o texto literário e a coreografia compõem-se de um conjunto de relações internas que revelam uma construção singular, uma realidade nova, um construto que, antes de tal configuração sígnica, só existe enquanto potencialidade, como ícone. Nos processos criativos da literatura e da dança, por analogia a outras formas de arte, o artista propõe um jogo com elementos estruturais e semânticos.

            A literatura tem suporte no código lingüístico, em seus aspectos morfológicos, sintáticos, ópticos e fônicos, bem como nos processos de construção de sentido. Este último pode ser dado em termos de referências, arquétipos, mitos e associações cotidianas do uso da linguagem. Por outro lado, as combinações e o trabalho estético passam a relativizar as referências, propondo jogos que dinamizam o significante e figuram o discurso, quer poético, narrativo ou dramático. A construção literária tem base na relação signo-objeto-interpretante, propiciada pela palavra, a qual é manipulada dentro da proposta estético-criativa do projeto artístico, tal como fora concebido pelo artista, em mecanismos específicos, em conjuntos estruturados, em configurações sígnicas especiais.

            Na dança, o suporte é o aparelho bio-mecânico do corpo, em suas formas externas, a partir, principalmente, dos músculos e articulações ósseas. Este aparelho é manipulado em suas dinâmicas de movimentos, em termos de qualidades específicas tais como extensão, ritmo, intensidade e peso que, por assim dizer, configuram a dramaticidade do corpo. Tal qual a linguagem verbal, conjuntos estruturados de movimentos, seqüenciados para este fim, se transformam em mensagens, as quais podem comportar os níveis de acesso semiótico de interpretação. A base material é a relação signo-objeto-interpretante, apresentada pela figura humana em suas possibilidades de movimento, de acordo com convenções comportamentais, arquétipos, mitos e associações cotidianas.

Por outro lado, o trabalho especializado e técnico faz do corpo um produtor de movimentos singulares, que comunicam desde suas conexões sintáticas até processos de dramatização e incorporação de personagens, nascendo nesta última observação um certo elo de contato entre as formas narrativo-dramáticas e a dança.

            Diante de tais considerações, há que se pensar um modo de adentrar a questão do texto literário, a princípio, pelo conceito de corporalidade e buscar os modos pelos quais o corpo enquanto tema pode fazer um passeio pelos domínios da palavra, uma vez que, nesta nossa observação, todo texto é essencialmente corporal.

            Roland Barthes expõe a figura O corpo do outro [2], como um fragmento de seu grande discurso amoroso. Neste trecho, apresenta a definição da palavra corpo, que aqui se pode recuperar: CORPO: Todo pensamento, toda emoção, todo interesse suscitado no sujeito apaixonado pelo corpo amado. De modo figurativo, Barthes apresenta, na seqüência, dois pequenos textos narrativo-teóricos, nos quais demonstra uma espécie de filosofia sobre discursos estéticos que abordam o corpo.

Trata-se de imagens de um narrador em primeira pessoa que sofisma sobre o corpo do outro, o ser amado, metonimizado na sua forma corporal, que se oferece como objeto de análise do olho do amador. No primeiro trecho, ressalta a ambigüidade do outro: o corpo doce e caloroso, em contraste a uma voz contida que propõe afastamento. Num outro exemplo, a oposição do corpo desajeitado, mas a voz certeira, bem formada. O corpo é tomado como imagem e expressão, como motivo maior da aspiração do eu, este eu que disserta ad infinitum o seu discurso amoroso, nas tramas de uma linguagem que recupera, todo o tempo, uma imagem do corpo, introjetada ou projetada, observada ou construída, egóica ou altruísta.

 

“(Eu via, friamente, tudo de seu rosto, e seu corpo: seus cílios, a unha do dedão do pé, a finura das sobrancelhas, dos lábios, do brilho dos olhos. Certo grão de beleza, uma maneira de esticar os dedos ao fumar; eu estava fascinado – a fascinação não é outra coisa senão a extremidade do distanciamento – por essa espécie de figurinha colorida, esmaltada, vitrificada onde eu podia ler, sem nada entender, a causa do meu desejo.) [3]”.

 

 

 Neste trecho, comprova-se o uso de elementos corporais, resgatados pelo signo lingüístico a compor o sentido (e as ambigüidades) do texto. O narrador em primeira pessoa passa a ler/teorizar sobre a essência do outro através de metonímias corporais do outro, de modo a configurar com as descrições poéticas, a corporalidade deste texto.

Buscando a aceitação do termo corporalidade para um trabalho de análise de textos literários, seleciona-se, inicialmente, uma referência literária da modernidade, que, ao propor um discurso estético, constrói o corpo como imagem e como signo. Tal imagem oferece uma inspiração e um exemplo para que aqui se possa pensar a corporalidade como elemento estético, para que se aborde o total expressivo do corpo, que se materializa na relação signo-objeto-interpretante. Trata-se do poema Missão do Corpo, de Carlos Drummond de Andrade[4] , transcrito a seguir.

 

 

MISSÃO DO CORPO

 

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Claro que o corpo não é feito só para sofrer,

mas para sofrer e gozar.

Na inocência do sofrimento

como na inocência do gozo,

o corpo se realiza, vulnerável

e solene.

 

Salve, meu corpo, minha estrutura de viver

e de cumprir os ritos do existir!

Amo tuas imperfeições e maravilhas,

amo-as com gratidão, pena e raiva intercadentes.

Em ti me sinto dividido, campo de batalha

sem vitória para nenhum lado

e sofro e sou feliz

na medida do que acaso me ofereças.

 

Será mesmo acaso,

será lei divina ou dragonária

que me parte e reparte em pedacinhos?

Meu corpo, minha dor,

Meu prazer e transcendência,

És afinal meu ser inteiro e único.

 

 

 

            No poema Missão do Corpo, o poeta Carlos Drummond de Andrade, faz uso de sua palavra como uma leve substância química que opera violentas transformações (como definiria Roland Barthes) para presentificar um jogo sígnico, fundamentado na expressão de um eu lírico que investiga, de modo gradativo, a consciência da missão de seu próprio corpo no mundo. Nesta busca,o eu lírico de  Drummond acaba por inscrever o corpo como representante de todo o pensamento, toda a emoção, toda sensação e, por fim, do discurso em si.

            Propõe-se, então, adentrar o poema, em sua estrutura interna e investigar alguns mecanismos poéticos que, numa formulação estética, engendram um conceito. Primeiramente, assume-se aqui que o poema parte de uma dualidade, ou de uma passagem de uma estrutura semântico-filosófica a outra, na detecção de que, em linhas gerais, a abordagem do corpo se dá de sua missão-aparência para a sua missão-essência.

            Dividido em três estrofes, sob estrutura de versos livres e sintaxe prosaica, o poema oferece ao leitor um eu lírico que caminha mudando as vozes do discurso. Na primeira estrofe, é auto-reflexivo, como num monólogo interior, constatando a realização do corpo como dualidade (entre sofrer e gozar), como num esforço a compreender a missão do corpo no mundo. 

Na segunda estrofe, no entanto, o eu lírico estabelece o próprio corpo como seu interlocutor, iniciando por uma saudação e terminando por uma declaração de amor incondicional, mesmo diante de todas as flutuações emocionais que a relação eu lírico/corpo pode incorporar.

Na estrofe final, há uma indagação ambígua do ponto de vista da natureza do discurso, enquanto remete à reflexão do monólogo interior, parece um aparte cênico, uma metalinguagem que leva o leitor para dentro do discurso, conquistando a cumplicidade do mesmo. Nos versos finais, o discurso volta-se para o corpo/interlocutor, buscando integrar-se a ele, assumindo uma unidade incontestável, o que impede todas as dicotomias insinuadas.

            O embate exposto pelo eu lírico resvala num processo intrapessoal que assimila a relação corpo/mente, ou mesmo corpo/espírito, propondo uma releitura de tal processo. Neste sentido, para Silviano Santiago, Drummond dá corpo à sua poesia por dois aspectos. A utilização de uma linguagem simples com um vigoroso artesanato poético, e a erotização desta linguagem. Para o autor, esta segunda característica é presente em todo o trabalho de Drummond, somente que variando em menor ou maior intensidade.

 

“O erotismo, implícito ou explícito na linguagem poética de Drummond, situa poemas no aqui e agora, a fim de que as palavras não se percam nos meandros dos floreios verbais bonitos e vazios. Ou seja, os exercícios éticos em poesia não são , diante do espelho, pedantes volteios da subjetividade em torno do umbigo; têm a densidade de um corpo que deseja outro corpo, ama, goza, sofre companheiramente, se emociona, castiga, envelhece, envilece, orgulha-se...” [5]

 

Numa perspectiva moderna, já nos primeiros versos, desmonta-se o status judaico-cristão do corpo, e também o hedonismo, ao afirmar que o corpo é feito tanto para sofrer quanto para gozar. Sofrimento e gozo são ao mesmo tempo conceitos coletivos e individuais, signos preenchidos por qualidades e referências de caráter pragmático, que o homem assimila em sua trajetória corporal (psíquica, emocional e cultural).

No entanto, o poema deixa transparecer que ambas as interpretações (de sensações e conceitos sobre as mesmas) são manifestações de uma ingenuidade, como se a consciência, intelectualizada e superegóica, não agisse por sobre o corpo. Assim, o corpo torna-se vulnerárel e solene, condições para que alcance a realização, independentemente de ser esta realização um sofrimento ou um gozo.

Num desdobramento, ocorrido na segunda estrofe, o eu lírico consegue saudar o seu próprio corpo, enaltecendo-o por ser a estrutura de viver e de cumprir os ritos do existir. Neste sentido, a missão aparente do corpo que era sofrer ou gozar, eleva-separa uma missão essencial: a própria vida da espécie. Isto acrescenta o dado filosófico de o corpo significar um contínuo, em sua fertilidade, e a possibilidade de relacionar-se com o mundo.

Na seqüência, versos três e quatro desta estrofe, o eu lírico faz uma declaração de amor incondicional ao corpo, que possui imperfeições e maravilhas, o que suscita um amor que intercala as sensações de gratidão, pena e raiva. Em termos corporais, esta imagem cria um conflito interno que explora vias de uma sensorialidade, que é, ao mesmo tempo, biológica, psicológica e intelectual. A consciência – projeto poético - investiga as reações emocionais, manifestas pela psicologia do corpo, às insatisfações da inteligência ou da própria estrutura psicológica com relação às ações e estados do corpo, no mundo, na vida, na existência.

Mantendo o corpo como interlocutor, nos versos finais, o eu lírico, assume-se como alguém que habita o corpo e se dilacera (campo de batalha sem vitória para nenhum lado). Complementando este topos, assume, nos versos finais, que é impotente, aceitando a felicidade ou o sofrimento que o corpo venha a oferecer.

Por fim, a terceira estrofe propõe uma indagação filosófica acerca desta questão, que remonta à leitura dos processos históricos a respeito do corpo, assimilados e questionados pelo eu lírico em seu embate com seu próprio corpo. Trata-se da divisão do conceito de corpo, dos projetos de interpretação dualista do corpo, que seriam resultado de uma lei divina, proposta por leituras religiosas ao longo do tempo, ou uma imposição dragonária, por leis e exércitos sociais e morais.

O questionamento ecoa ao final do poema sem resposta evidente. No entanto, nos três últimos versos, o eu lírico celebra a fusão dos elementos do corpo, metaforizados em natureza físico-emocional (dor/prazer) e natureza espiritual e artística (transcendência). Evidencia, por fim, o caráter orgânico e totalizante do corpo, inserindo-se e sentindo-se, finalmente, parte dele. Tal fato é enfatizado na expressão final meu ser inteiro e único, na qual a palavra ser incorpora os sentidos de verbo (existir) e substantivo (ser humano).

Esta tese aceita a sugestão do poema e busca adentrar o discurso do corpo, principalmente acatando como via de acesso às relações mantidas entre a literatura e a dança. Relembrando Barthes, e o conceito de texto exposto anteriormente, pensa-se que estas artes são produtoras, como as artes de modo geral, de textos corporais, dentro de suas especificidades. Assume-se nesta tese, de fato, que todo e qualquer texto é essencialmente corporal, expressão vívida de um corpo que sente e expressa-se.

A análise literária moderna sugere o termo intertextualidade como conceito operatório. Neste sentido, segundo Leyla Perrone-Moisés [6], cada obra nova é uma continuação, por consentimento ou contestação, das obras, gêneros e temas anteriores a ela. Um estudo de uma obra moderna deve perpassar, portanto, os processos de rapto, absorção e integração de elementos alheios na obra nova. Neste sentido, parte-se do pressuposto de que a essência da intertextualidade é o trabalho de assimilação e de transformação, característica da criação artística, que aponta para um proceder analítico.

Diante disso, tem-se que o texto literário passa a ser o lugar de fusão de vários sistemas de signos originários de várias ordens, desde as pulsões individuais do artista até a conjugação de faixas culturais, sociais e artísticas. Nesta tese assume-se que estes pensamentos são aplicáveis também às arte da dança e do teatro. Estas manifestações vão constituir, em seus processos específicos, obras que também resultam de uma seqüência na qual se citam textos e referências, em que se estabelecem formas de contato com o cânone e com a contemporaneidade. Além disso, contemplam, o teatro e a dança, obras que resultam de uma convergência de sistemas sígnicos diversos, pela natureza cênica, que pressupõe recursos de vários outros códigos como a iluminação, a cenografia e a vestimenta.

Neste sentido, Laurent Jenny oferece algumas especificações sobre mecanismos pelos quais a intertextualidade comparece nos textos literários, de modo geral. Pretende-se aqui adotar alguns de seus apontamentos como instrumento inicial de abordagem dos objetos de estudo. Para este autor, o processo intertextual é operado por um texto centralizador, que detém o comando de sentido.

Um estudo analítico deve, segundo ele, verificar de texto para texto, as relações enquanto conjuntos estruturados e, então, perceber – termo a termo – a recuperação, a adaptação, a perversão e a contradição, modos pelos quais o texto centralizador pode operar seu processo de intertextualidade. Tais operações envolvem posturas ideológicas da obra nova, em relação ao seu momento e ao momento da produção do texto material.

Voltando ao texto de Leila Perrone-Moysés, enquanto atitude crítica e analítica, há que se perceber a mudança, de um texto para outro, do tom, da ideologia, do movimento, pelas suas contradições e simetrias. E, ainda, seja qual for o seu suporte ideológico confesso, o uso intertextual dos discursos corresponde sempre a uma vocação crítica, lúdica e exploradora.

Laurent Jenny apresenta uma metodologia para se abordar a intertextualidade, apontando para os recursos temáticos e para o léxico, que o autor (poeta, escritor, artista) pode fazer uso, além de apresentar as figuras da intertextualidade, das quais selecionam-se aqui algumas que tangem diretamente os objetos de estudo. De todo modo, o criador de um fato intertextual inicia por ser um leitor crítico que, a partir de seu repertório, poderá propor a subversão do discurso primeiro, ao criar o seu texto centralizador, optando, de fato, pelos procedimentos da paráfrase ou da paródia.

Pensando-se no processo de composição literária, trata-se de um jogo dialético entre o sensível e o inteligível que é formalizado; jogo este que se fecunda no momento em que a História da Arte dá aos processos artísticos a matéria para os fenômenos de composição. Para Laurent Jenny, a intertextualidade acarreta sempre problemas de enquadramento, uma vez que devem caber vários textos num só, sem que se destruam e sem que o intertexto constitua numa unidade estruturada a ponto de se perderem as referências do(s) texto(s) – material(is). Deve haver o intuito de manter a relação entre o texto centralizador e o texto material, sem que formem uma unidade estética, o que descaracterizaria a relação intertextual.

Mesmo que estas informações tenham como base o texto verbal-literário, interpreta-se aqui que esta teoria pode ser aplicável também a processos intersemióticos, como os espetáculos de dança e teatro, que se montam em combinações de vários códigos específicos, desde o roteiro ou peça dramatúrgica, até os recursos técnicos, passando, obviamente, pelas corporeidades dos atores e dançarinos. Pode-se supor que este conjunto de informações habilita para a leitura inicial de uma composição artística literária ou coreográfica.

 

 


[1] Professor Doutor em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela UNESP/FCLAssis/SP.

[2] BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. 15ª. Ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2000.(pp. 96-97)

[3] BARTHES, Roland. Idem. (p.97).

[4] DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Farwell. 3ª. Ed. São Paulo: Editora Record, 1997. (p. 71)

[5] SANTIAGO, Silviano. “A simplicidade da poesia de Carlos Drummmond de Andrade”. Texto apresentado como posfácio à  Farwell, Op. CIT.

[6] PERRONE-MOISÉS, Leyla. As Flores da Escrivaninha. São Paulo: Cia das Letras, 1990.