Da Dança de Rua à Dança Contemporânea , a Breakdance1 na "Arte Oficial"

Por Vanilton Lakka 2

Há algum tempo, um fenômeno tem ganhado destaque no cenário da dança mundial: a presença em produções de Dança Contemporânea, de elementos das chamadas Danças de Rua, ou melhor, danças e técnicas presentes em uma cultura urbana muito específica, a Cultura Hip Hop 3.

Este contato tem ocorrido basicamente em dois modelos. Primeiro, grupos e coreógrafos possuidores de uma formação essencialmente de Danças de Rua, ao tomarem contato com outras informações (além de seu ambiente característico), passam a criar trabalhos que trazem peculiaridades próprias de produções de Dança Contemporânea, e desta maneira começam a freqüentar espaços antes restritos a coreógrafos com formação oficial (acadêmica). Este é o caso da Cia. de Dança Balé de Rua (Uberlândia-MG), presente em Festivais de Dança Contemporânea nacionais como o FID (Fórum Internacional de Dança) e o Panorama Rio Arte, e internacionais como a Biennale de la Danse (Lyon-França) e recentemente o Movi Berlim. E os grupos do Rio de Janeiro Membros Cia. de Dança de Macaé, participando em 2004 da mostra de Dança Contemporânea de Joinville e o Grupo de Rua de Niterói, de Bruno Beltrão, que após grande sucesso em festivais europeus, teve seu último espetáculo financiado por festivais internacionais de Dança Contemporânea, entre eles o SpringDance (Holanda).

No segundo modelo, coreógrafos de Dança Contemporânea têm estabelecido conexões com dançarinos de Breakdance, em parte pesquisando o padrão de movimento executado por eles. É o caso de Rodrigo Pederneiras, coreógrafo do Grupo Corpo (Belo Horizonte) ao fazer referência ao Popping no espetáculo "O Corpo". Também há vestígios de Breakdance em "Casanova", espetáculo de Angelim Preljocaj criado para o Balé da Opera de Paris, no qual, bailarinos com formação essencialmente clássica executam movimentos que remetem a performances de B.boys 4 . Outros têm criado parcerias com grupos, levando os próprios para o palco em espetáculos de Dança Contemporânea, é o caso da Cia. Será Que? de Rui Moreira em "Quilombos Urbanos", espetáculo realizado em parceria com a Cia, Elemento-X, o Ballet Stagium em "À Margem dos Trilhos", em parceria com os dançarinos Frank Ejara, Sô e Djha, além do coreógrafo francês José Moltalvo que também coloca B.boys em seus espetáculos 5.

Assim como os artistas do Grafite foram descobertos na década de 1980, e até certa medida absorvidos pela Arte Visual oficial, ocupando espaços como galerias (caso do Haitiano Jean-Michel Basquiat), a Breakdance tem sido descoberta e levada a palcos de teatros como o Teatro da Ópera da Bastilha e o Teatro da Ópera de Paris, espaços tradicionalmente reservados à arte tida como "oficial".

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1Breakdance: Denominação dado pela Mídia (jornais, TV,q nome eu uso?) nos anos 80, para o conjunto das danças presentes no movimento Hip Hop. Dentre elas podemos citar três grandes ramos originais, a dança B. boy, o Locking e o Popping.
2Cientista Social, Bailarino, Coreógrafo e Pesquisador de Dança
3"Em termos históricos o hip hop surgiu como experiência cultural juvenil relacionada às transformações socioeconômicas que atingiram a juventude no Bronx nova-iorquino a partir dos anos 70". O termo hip hop segundo Afrika Bambaataa, teria sido criado por um Dj chamado Levebug Starki, ele o utilizava com o propósito de estimular o público a mover o corpo durante as festas que aconteciam no South Bronx, "hip" seria mover os quadris e "hop" saltar. Em um segundo momento, o termo passou a definir... "um conjunto de atitudes, gestos, linguagens e formas estilizadas de se vestir associadas". ao que foi batizado como Cultura Hip Hop. Seus principais pilares são o MC (Rapper), o DJ, o Grafitte e a Breakdance ou Danças de Rua.
4B. boy: Nome usado para designar o dançarino de Danças de Ruas que dança o Estilo B. boy. Este estilo é composto pelos movimentos: Toop Rocy, Up Rocy, Freez, Power Movie e o Foot Work.
5O hip hop tem se tornado comum na cena contemporânea francesa.