Da Magia à reapropriação do corpo

Vitor Casado / 30-06-2005

A dança é uma linguagem gestual e é conhecida desde o "Paleolítico Superior cerca de 25.000 a 10.000 a.C." Nesta altura o seu carácter era sagrado ou mágico. Uma forma de chamar a atenção dos Deuses para que estes propiciassem boas benesses às tribos que assim os invocavam.
Numa fase posterior acabou por se transformar numa forma de celebração, tanto assim que o termo "Dança" tem origem no sânscrito tanha, que significa "desejo de vida ou movimento", "alegria de viver", "celebração".

Com o tempo o homem foi-se libertando do esforço físico acabando por relegar o seu corpo para segundo plano em prol do intelecto e da industrialização. Actualmente vive-se numa "cultura espectral" que anula o corpo. O próprio facto de se espreitar alguma coisa é poder levar o olhar onde não se pode levar o corpo. O tele-trabalho, a videoconferência entre outras formas de comunicação virtual são actividades que eliminam as barreiras físicas e geográficas e por consequência eliminam a consciência deste corpo que nos sustenta.
A mobilidade outrora essencial à vida é hoje substituída por uma mobilidade virtual sem que o sujeito tenha de se deslocar. Mesmo viajando no TGV é esta máquina que se move substituindo a locomoção outrora só possível pelas nossas pernas.

A Dança no século 21 relembra que "o corpo do homem é a referência do seu habitat" e que "a dança é a reapropriação do corpo".
Esta reapropriação pode ser feita pelas formas clássicas de dança tal como o ballet ou pelas tendências modernas que procuram evidenciar aquilo que o ballet escondia. Nomeadamente a propensão que o nosso corpo tem para a queda, e a incorporação de movimentos do dia a dia originando-se assim uma pantomima realística podendo esta incluir mais ou menos abstracção.

Dançar é fazer lembrar à mente que há um corpo que a sustenta. Integra por isso uma boa manutenção do intelecto. E se alguém decidir que tem pés de chumbo lembre-se de que o corpo tem pelo menos dois braços e um tronco.

A Dança procede à desmontagem do corpo para voltar a integrá-lo de forma diferente a cada movimento.
O espaço reorganiza-se e adapta-se a cada mutação ou gesto. A dança tem um começo e um fim mas o espaço onde decorreu mantém uma aura como testemunho da respiração de um corpo em busca da harmonia.

Agora que nos reapropriamos do corpo não será o próximo passo experimentar-mos de novo a magia?


BIBLIOGRAFIA:

Castro, Maria João (2004), Dança Oriental, Edição de Autor.
Virilio, Paul (2000), Cibermundo: A Política do Pior, Editorial Teorema