Edifício Corpo: identidade cultural
Por Ana Carolina
Mundim
O corpo funciona como um sistema de armazenamento de experiências e referências
que, acumuladas e somadas aos hábitos e costumes dos ambientes em que
vivemos, formam nossa personalidade e criam a identidade individual de cada
ser. Aspectos climáticos, culturais, políticos, crenças
religiosas e condições financeiras compõem parte dos fatores
que definem os trajetos de cada sociedade e que, conseqüentemente, interferem
no comportamento do indivíduo. A maneira particular de um corpo se expressar
está, portanto, vinculado às suas vivências pessoais, mas
devemos lembrar que estas não se dissociam do ambiente onde o corpo está
inserido. Ao contrário, se observarmos os comportamentos de diferentes
sociedades, poderemos verificar que os corpos se apresentam, em sua maioria,
como reflexo das cidades que habitam.
O corpo é identidade. Na dança, ele é o veículo
capaz de produzir e materializar a cena, construindo desenhos no espaço-tempo,
aflorando sentidos, tornando a carne fluxo, tornando a respiração
ritmo. Poder averiguar referências e características culturais,
desvendando os mistérios da memória corporal é, talvez,
poder aprofundar-se na essência criativa da linguagem da dança.
Quando falamos de corpo brasileiro, muitas vezes associamos imediatamente à
sua imagem a questão das manifestações artísticas
e/ou religiosas populares, genuinamente brasileiras, tais como: folia de reis,
congadas, carimbó, bumba meu boi, etc. No entanto, no âmbito da
dança, que aqui chamamos de cênica , este corpo também cria
marcas, provocando discussões em torno deste universo. Um exemplo, dentre
vários que poderíamos citar, se refere a um trecho do livro "Oito
ou Nove Ensaios sobre o Grupo Corpo " , que diz:
" ... é fácil para qualquer um ver um balé do Corpo
com motivo brasileiro, música do Nazareth ou o que seja, e dizer que
só brasileiros autênticos poderiam fazer aquilo. Mais difícil,
e é aí que conta a inexprimível coisa, é você
não saber nada sobre o Corpo, entrar num teatro em Paris por acidente
e ver bailarinos no meio de um balé abstrato, malhas pretas contra um
fundo cinza, com nada que indique sequer o hemisfério de origem do grupo,
e mesmo assim matar: são brasileiros." (BOGÈA, 2001, p.19)
Depoimentos como este, de Luís Fernando Veríssimo, são
recorrentes em relação a diferentes trabalhos de dança
do Brasil (que vão desde cias de grande e médio porte, até
bailarinos independentes). E, portanto, instigam reflexões em torno da
relação corpo-brasilidade. As questões mais comuns são:
a) Se existe realmente uma identidade cultural nos corpos cênicos dançantes,
qual é o viés que os aproxima?; b) Num país de tanta diversidade
e contradições sócio-culturais, é possível
definir uma poética brasileira na dança?; c) Por outro lado, no
contexto mundial da globalização (massificada, pasteurizada),
é possível determinar um diferencial que identifique corpos brasileiros
em cena?
A partir da perspectiva de que o corpo do bailarino é seu principal instrumental
artístico de comunicação, propomos que os processos de
criação coreográfica e interpretação estão
impregnados por elementos inerentes à sua cultura e utilizamos o corpo
brasileiro como objeto de investigação. Edifício corpo:
alicerce da alma, "emparedando" sentimentos, rebocando as vísceras,
elaborando terreno fértil para movimentos vitais. Corpo-morada: construção
dos sentidos, experiência do sensível, textura das artes, tecer
de emoções, imagem do saber.
Ana Carolina Mundim: Graduada em Dança pela UNICAMP, Mestranda em Artes
pela UNICAMP, integrante do GPDT República Cênica, coordenadora
do PADES (Projeto Artístico para o Desenvolvimento Social), Professora
externa da PUC-Campinas - (mundim@iar.unicamp.br)
www.conexaodanca.art.br