Lesões
na Dança
Autor
ou Fonte: Heloísa Silva Guerra
Heloísa
Silva Guerra*
*Fisioterapeuta pela Universidade Católica de Goiás,
Especialista em Análise Terapêutica do Movimento Humano
Aplicada à Fisioterapia, Pós-graduanda em Fisioterapia
Traumato-ortopédica.
O movimento
humano é um processo de altíssima complexidade, que
se caracteriza por variedades e qualidades inumeráveis e por
uma versatilidade de respostas motoras devido às várias
combinações neuromusculares possíveis a cada
momento. A dança ao organizar seus códigos nas suas
diversas linguagens, produz e ocupa continuamente o espaço
transformando o estado do corpo em cada movimento que produz. Para
que isso ocorra é necessária uma apurada integração
dos sistemas corporais a fim de assegurarem a aquisição
e a manutenção de domínios tão especializados
e tão específicos (MARKONDES,2001).
Segundo MENDES (1985), a dança é um conjunto de movimentos
que se desenvolve no espaço e num tempo determinado, sendo
configurada por um ritmo, e capaz de expressar tanto simples como
fortes emoções. Ela é uma expressão específica
do comportamento motor humano, em que o bailarino tenta produzir um
efeito emocional em suas apresentações (HUGEL, 1999).
Assim, FAHLBUSCH (1990) afirma que dançar é transmitir
um estado de espírito, uma maneira de se ver e de ver o mundo,
de sentir plenamente seu corpo e o utilizar para conhecer outros sentimentos
e sensações. Através da dança o indivíduo
atinge uma forma superior de vida, ele experimenta um equilíbrio
corporal e psíquico ao qual legitimamente aspira.
A dança existe desde a pré-história e expressava
a relação do homem com a natureza. O homem primitivo
dançava para agradar aos deuses em rituais tribais e sagrados,
e havia uma ligação da dança com todos os acontecimentos:
morte, nascimento, guerra, caça, casamento, sol, chuva, lua,
festas, iniciação dos adolescentes, primavera, colheita,
fertilidade, entre outros (LEAL, 1998). Para GUALBERTO (2004), o papel
da dança e sua atuação nas sociedades, assim
como na história da humanidade, confirma seu caráter
civilizatório e a torna parte integrante e indispensável
do funcionamento social humano; pois através dela são
revelados conceitos e valores de uma sociedade; e apresentadas as
possibilidades do futuro do homem e seu meio.
Associada ao mágico, ao êxtase, a dança começou
a ser considerada, entre os povos primitivos, como um recurso para
comunicação entre vivos e mortos; tal ligação
impôs-lhe regras disciplinares que lhe conferiu aspecto de cerimônia
formal. Formalizados, tanto dançarinos como coreógrafos
começaram a se preocupar com a coordenação e
com a estética dos movimentos (CAMINADA, 2006).
Através dos tempos, a dança foi se desenvolvendo e tornando-se
complexa, sendo realizada individualmente ou em grupos, associada
a movimentos rítmicos, elaborados e organizados em vários
estilos: balé clássico, contemporâneo, moderno,
jazz, dança de salão, dança espanhola, sapateado,
dança de rua, dança do ventre, entre outras (CAMINADA,
1999).
Segundo ZONTA apud GREGO et al (1999), o bailarino é aquele
que se distingue dos demais por qualidades e aptidões que o
tornam um artista, e segue normas e regras da dança, com corpo
adequadamente preparado, demonstrando expressividade e qualidades
artísticas.
A prática dos bailarinos exige deles horas de treinamento exaustivo
que envolve as articulações em posições
excessivas, muitas vezes não-fisiológicas, podendo exceder
a amplitude de movimento normal resultando em lesões. Geralmente
o treinamento é composto por exercícios de aquecimento,
alongamento, flexibilidade, quedas, saltos, equilíbrio, amplitudes
exageradas de movimento, forças dinâmicas, estáticas
e explosivas, giros, pegadas, criatividade, relaxamento, trabalho
sobre sapatilha de pontas, resistência aeróbica, anaeróbica,
entre outros, tudo para buscar o sincronismo perfeito e a técnica
apurada que resultam em um desempenho corporal de qualidade.
A partir do século XIX e XX aumentou-se o interesse dos estudiosos
pela Medicina Esportiva, onde os profissionais qualificados dessa
área valorizavam a prevenção e o tratamento das
lesões advindas da prática do esporte (DELISA e GANS,
2002). Atualmente há um maior interesse nos estudos que enfocam
problemas médicos surgidos em dançarinos, especialmente
no balé clássico (GARRICK e REQUA, 1993).
No meio científico, apesar de se perceber poucas publicações
direcionadas para medidas preventivas de lesões em dançarinos,
nota-se uma crescente valorização à experiência
fisioterapêutica oferecida aos cuidados dos indivíduos
praticantes da dança. Esse crescimento é decorrente
do alto número de lesões, aumentando assim, a procura
pela reabilitação funcional (MILAN, 1994 apud GAGLIARDI
et al, 2003).
Vários são os fatores que contribuem para a não
prevenção das lesões. Eles podem ser divididos
em fatores extrínsecos, como calçados, piso e temperatura
inadequados; e fatores intrínsecos, como encurtamento muscular,
hipermobilidade, fraqueza muscular, dietas inadequadas, entre outros
(LIANZA, 2001; DELISA e GANS, 2002; DELIBERATO, 2002).
A combinação de fatores extrínsecos e intrínsecos
leva às mais diversas lesões, como tendinites do músculo
tríceps sural (tendão de Aquiles) e do tibial posterior,
fasceíte plantar, síndrome do túnel do tarso,
fraturas por estresse da tíbia e metatarsos, hálux valgo
e as lesões ligamentares relacionadas com entorses de tornozelo
e do pé (ANTUNES, 2005).
Assim, as medidas preventivas devem incluir o preparo adequado dos
aspectos físicos e mentais; o uso de roupas e calçados
adequados; o conhecimento acerca dos fatores climáticos e dos
principais tipos de lesão em casos de frio ou calor extremos;
alimentação equilibrada, com a ingestão de grande
quantidade de líquidos diariamente; repouso adequado nos períodos
entre apresentações ou competições; análise
das condições das superfícies onde a dança
será praticada; proteção das áreas mais
susceptíveis a lesões e prática de atividades
físicas compensatórias (DELIBERATO, 2002).
As medidas supracitadas deveriam fazer parte do cotidiano de qualquer
grupo, porém, na prática não é o que evidenciamos.
O que se encontra na maioria das escolas de dança está
muito aquém do desejado, pela falta de infra-estrutura adequada
para salas de aula, e até mesmo pelo despreparo de muitos profissionais
que atuam no mercado da dança. Em companhias profissionais
têm surgido o interesse de proporcionar aos bailarinos uma assistência
completa, dada por uma equipe multiprofissional composta por professores
de dança altamente qualificados, educadores físicos,
fisioterapeutas, nutricionistas, médicos, psicólogos,
entre outros; com o objetivo de diminuir a incidência de lesões
e o absenteísmo, e melhorar a qualidade da performance corporal
(BITTAR, 2004).
Vários autores como GARRICK e REQUA (1993), RAMEL e MORITZ
(1994) e GOULD III (1993); apontam a articulação do
tornozelo como um dos segmentos onde acontece o maior número
de lesões em bailarinos. Isso se deve ao fato de alguns bailarinos
apresentarem uma mobilidade articular exagerada e diminuição
da força local, o que levaria ao surgimento de lesões.
Segundo MINGUEZ (1988), um aumento da prevalência da hipermobilidade
articular em bailarinos, os predispõem a apresentar lesões
ligamentares entre outras patologias, e dependendo da intensidade
da atividade a que são submetidos, a hipermobilidade pode ser
considerada mais como uma desvantagem.
KLEMP et al (1984) já consideravam a hipermobilidade como uma
desvantagem definitiva, pois aumenta o risco de lesões em bailarinos
e pode resultar em problemas posturais devido a hiperextensão
de cotovelos e joelhos.
Um dos fatores que podem explicar a grande incidência de lesões
em membros inferiores nos indivíduos praticantes de dança
é relativo ao posicionamento adotado: a prática da dança
exige uma ampla e complexa movimentação dos pés,
exigindo por vezes, posicionamentos extremos e antianatômicos,
como a rotação externa dos pés (posição
básica do balé clássico), que causa tensão
nos ligamentos mediais do joelho (GAGLIARDI et al, 2003).
As entorses em inversão de tornozelo são as mais comuns
em todos os tipos de dança, isso porque a extremidade distal
do corpo é a responsável pelo apoio de toda a estrutura
corporal, sendo, portanto intensa a sobrecarga nessa região
(YOUNG, 2002).
PETRUCCI (1993) afirma que o aquecimento e o alongamento são
importantes na dança e em qualquer atividade atlética,
pois prepara a musculatura para atividades vigorosas, atuando assim
como uma medida de prevenção das lesões. Seguindo
a mesma linha de pensamento, HOWSE (1994) apud GREGO et al (1999),
afirma que muitas lesões músculoligamentares são
decorrentes da falta de aquecimento prévio. Ele diz ainda que
um músculo aquecido é mais elástico e trabalha
de forma rítmica e ordenada, contraindo-se com mais eficiência
e relaxando completamente em um menor tempo.
Todo o bailarino que usa o corpo como instrumento de trabalho, deve
ter consciência do seu alinhamento esquelético e dos
locais de assimetria, bem como das suas próprias restrições
de movimento, a fim de que possa tirar o melhor proveito do seu físico,
sem exceder-se na tentativa de vencer obstáculos (SAMPAIO,
1999).
De acordo com BITTAR (2004), na dança, muitos bailarinos possuem
uma diminuição da capacidade de reconhecimento do próprio
corpo, o que os deixa mais vulneráveis ao aparecimento de lesões.
Para a especialista em dança SAYONARA ANTUNES (2005), a falta
de informação dos bailarinos sobre seu próprio
corpo, faz com que o número de lesões seja cada vez
maior, uma vez que muitos professores de dança apresentam-se
despreparados no sentido de orientar seus alunos em questões
anatômicas, cinesiológicas e fisiológicas, questões
estas que estão diretamente ligadas à dança no
que se refere ao rendimento técnico.
A partir desses dados, onde é notável a grande incidência
de lesões em bailarinos, é importante valorizar a atuação
de profissionais de dança capacitados e de fisioterapeutas
nas escolas e companhias de dança, sendo este último
um profissional detentor de conhecimentos e recursos capazes de contribuir
beneficamente para o melhor desempenho técnico dos bailarinos,
e de diminuir a vulnerabilidade destes corpos ao aparecimento de lesões.
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