Aplauso

14/12/2004
Prosa de: Vitor Casado
Fonte: Prosa a Solta

Um piano começa por se fazer escutar.

Doem-lhe as mãos e os pés mas não sabe porquê.

Tem vontade de se agachar talvez pelos sem abrigo.

Rodopia de olhar fixo na paisagem.

Atrás de si a escuridão é uma cortina que vela pelos que já partiram.

Avança em frente como se asas ganhasse.

Asas não tem e o piano continua rasgando acordes dramáticos.

Procede à queda do corpo.

São tantos os corpos que caem na neutralidade de fogos cruzados.

Pietás com os filhos nas mãos.

Apetece-lhe gritar mas o eco não repete a sua angústia.

O piano sim esse faz adivinhar o eco.

Os braços esticados são uma águia em elevado voo picado.

As correntes de ar quente mantêm o seu corpo a planar.

A fome e os sorrisos, attitude e arabescos.

O sonho perpetua-se na memória enquanto a dor se aquartela na epiderme.

A droga é uma futilidade que se esgota nas veias.

A dor e a doença haverá um dia.

Há que adiar esse dia, recuar no tempo se tal for preciso.

Rodopiar, elevar e esquecer-se de tudo para de tudo se esvaziar.

Eis a celebração da vida que o piano pretende igualar.

O corpo não suporta mais, o piano cala-se.

Braços e pernas arrastam o corpo para uma vénia.

Houve aplausos. Muitos e dispersos.

Só então se dá conta que estivera a dançar.

A escuridão cede lugar à luz e o êxtase vai normalizar.