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Aplauso
14/12/2004 Um piano começa por se fazer escutar. Doem-lhe as mãos e os pés mas não sabe porquê. Tem vontade de se agachar talvez pelos sem abrigo. Rodopia de olhar fixo na paisagem. Atrás de si a escuridão é uma cortina que vela pelos que já partiram.
Avança em frente como se asas ganhasse. Asas não tem e o piano continua rasgando acordes dramáticos. Procede à queda do corpo. São tantos os corpos que caem na neutralidade de fogos cruzados. Pietás com os filhos nas mãos.
Apetece-lhe gritar mas o eco não repete a sua angústia. O piano sim esse faz adivinhar o eco. Os braços esticados são uma águia em elevado voo picado. As correntes de ar quente mantêm o seu corpo a planar.
A fome e os sorrisos, attitude e arabescos. O sonho perpetua-se na memória enquanto a dor se aquartela na epiderme. A droga é uma futilidade que se esgota nas veias.
A dor e a doença haverá um dia. Há que adiar esse dia, recuar no tempo se tal for preciso. Rodopiar, elevar e esquecer-se de tudo para de tudo se esvaziar. Eis a celebração da vida que o piano pretende igualar.
O corpo não suporta mais, o piano cala-se. Braços e pernas arrastam o corpo para uma vénia. Houve aplausos. Muitos e dispersos. Só então se dá conta que estivera a dançar. A escuridão cede lugar à luz e o êxtase vai normalizar. |
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