Por dentro da dança

por Marcela Benvegnu

Pensar na dança como uma linguagem que fala através do corpo humano e ser capaz de articulá-la, (pois, com a clareza da articulação, vem a clareza da comunicação), não é tarefa simples.
Falar de e sobre dança é diferente do que falar de dentro da dança. Quem é da dança tem uma visão completamente diferente daqueles que não fazem parte deste meio de comunicação.

“Dentro da Dança”, de Murray Louis com apresentação de Marcel Marceu e introdução de Alwin Nikolais, editora Nova Fronteira, é um livro que fala de dentro.

Murray não é um escritor que tenha aprendido a falar sobre dança, é um grande bailarino, com irrestrita afeição por sua arte. Ele escreve de maneira autêntica e informal sobre uma profissão pouco conhecida, mas quase sempre excessivamente glamorizada, e escreve de dentro - de um ponto de vista muito raramente encontrado na literatura sobre a arte da dança.

Murray tenta, ao longo dos textos, ser verbal, num terreno não verbal. Dar voz a estes artistas não-verbais é a maior intenção. “Os professores falam, os coreógrafos falam, os críticos falam (e falam), mas os bailarinos fazem” já dizia ele.

O livro reúne 179 páginas sobre os sentimentos de um bailarino no auge da carreira, embora no Brasil vem sendo difícil estar no “auge”. Mas também retrata aspirações e ansiedades de todos na profissão, que sentem algo diferente quando estão no palco, na coxia, a espera das luzes, refletores e principalmente dos aplausos.

Descrevendo o suor como uma linda fornalha humana que leva à ebulição sua ampla consistência líquida. Numa linguagem poética, traduz a importância de estar aquecido para que o corpo possa entrar em movimento. Suar é uma função natural dos bailarinos, por mais belos que possam ser, por mais transcendental que seja a arte, é o suor que lhes empresta sua pátina.

Estamos acostumados a entender “première” como “pela primeira vez”, mas, esta palavra para coreógrafos se traduz em “pela última vez”. O subir no palco sabendo que aquela será a primeira e última noite de estréia, a ansiedade de uma primeira vez, com o alívio da última estréia faz com os sentimentos se misturem. Murray não descreve essa mistura de sensações que um bailarino sabe que existe e que para ele é natural. Apenas descreve que uma noite de estréia é mais do que importante para o bailarino: a estréia é a noite “mais” importante para o bailarino, é onde todos os meses de trabalho coreográfico, de ensaios, de esforço vão ser finalmente concluídos e recompensados por um único som: os aplausos.

O livro é excelente no que diz respeito às descrições dos sentimentos, nos palcos, teatros, o calor das luzes e iluminação, a mistura dos vários “eus” (coreógrafo - bailarino - professor - pessoa), mas peca no que diz respeito a temporalidade. Murray apenas situa o leitor especificando a cidade onde está escrevendo, não faz referências aos períodos, as datas, sendo que a própria história da dança é marcada por datas, pelos períodos de transição entre escolas, métodos, bailarinos e tendências. As palavras, apesar de toda sua especificidade, não são tão exatas quanto se pode esperar.

“Dentro da Dança” é um livro para e sobre bailarinos, e se há dificuldade em verbalizar o factual ou científico, é fácil imaginar o caos resultante das tentativas de comunicar o não-verbal, como a linguagem da dança. Os comunicadores verbais, que fazem parte do cotidiano, não teriam as mesmas sensações que o livro transmite para aqueles que todos os dias colocam as sapatilhas nos pés e se comunicam com o corpo através de um desenho de movimentos que se transformam em coreografia.

“DENTRO DA DANÇA”

Autor: Murray Louis

Apresentação: Marcel Marceau

Introdução: Alwin Nikolais

Nº de páginas: 179

Coleção: Corpo Análise

Editora: Nova Fronteira.

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Marcela Benvegnu é bailarina, jornalista, aluna de pós-graduação da UFBa (Universidade Federal da Bahia) e escreve às terças-feiras no TodoDia.

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