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Porque
ensinar dança na escola?
Por Miriam
Lamas Baiak
mlamasbaiak@yahoo.com.br
Antes do
homem falar, ele dançou. Foi por meio do movimento que ele se
comunicou com os seus, com a natureza e com o sobrenatural. A dança
foi ao lado da música a primeira manifestação humana.
Ela foi na pré-história uma forma de comunicação,
religião, entretenimento e conhecimento. Então, não
poderia ser ela uma forma de educação?
Débora Barreto em seu livro cita, através de uma pesquisa
feita com alunos estudantes de dança, quais seriam os possíveis
sentidos de ensinar dança na escola. Estes seriam: propiciar
o auto-conhecimento; estimular vivências de corporeidade; proporcionar
relacionamentos estéticos com outras pessoas e com o mundo; incentivar
a expressividade; possibilitar diálogos corporais e desenvolver
apreciação e fluição de arte. (BARRETO,
2004, p. 66)
Sendo ainda está uma expressão artística e humana;
que dá prazer e leveza; é uma forma de conhecimento; libera
a imaginação, a criatividade; e é uma forma de
comunicação.
E que um de seus objetivos é formar cidadãos.
Ainda podemos citar depoimentos de Atte Bottelli (professora da Faculdade
Angel Viana e da Universidade Federal do Rio de Janeiro) que fala da
dança com um "ótimo recurso para desenvolver uma
linguagem diferente da fala e da escrita, aumentar a sociabilidade do
grupo e quebrar a timidez...a prioridade é levar a criança
a ter consciência corporal e entender como o corpo dela se relaciona
com o espaço". E Marila de Andrade (professorada Universidade
Estadual de Campinas) diz que "a dança é a única
manifestação artística que realmente integra o
corpo e a mente".
Baseando nos relatórios destes professores podemos ver que a
dança é um elemento importante na educação
escolar. Mas como podemos entender esta afirmação?
Dentro das teorias de ensino-apredizagem podemos ver as teorias mediacionais,
que são as de Gesalt, Piaget, Vygostsky e de Gugné. Estes
teóricos afirmam que a aprendizagem ocorre através das
relações externas e internas de um individuo (SACRISTÃN,
1998). Gallahue e Ozmun dizem que este processo se dá através
da genética do individuo, do meio em que ele vive e das tarefas
que realiza. Existe uma troca de informações entre o individuo
e o ambiente.
E, ainda, o "conhecimento se dá por um processo de interação
radical entre sujeito e objeto, entre individuo e sociedade, entre organismo
e meio" (BECKER, 2001, p.36).
As aulas de dança envolvem o aluno e o ambiente, fazendo com
que busquem novas possibilidades de movimentos contextualizando com
sua realidade, trocando informações com os colegas, solucionando
problemas propostos, fazendo relações, e, conseqüentemente,
gerando conhecimento.
O professor proporciona para o aluno atividades fundamentadas nos princípios
da dança criativa que podem estimular, motivar, comunicar e fazer
uma interação entre as crianças, facilitando o
relacionamento inter-pessoal e a exploração ambiental.
Estas atividades estimulam a capacidade de solucionar problemas de maneira
criativa; desenvolvem a memória; o raciocínio; auto confiança
e auto estima; fazendo com que o individuo tenha uma melhor relação
com ele próprio e com os outros; além de ampliar o repertório
de movimentos do aluno. (LABAN, 1990; BARTENIEFF, 1991; MARQUES, 1999;
FERNANDES, 2001; BERTOLDI, 2004)
O professor ainda trabalha como mediador, ele dá informações,
mas não esquece das informações que o aluno possui,
deixando-o dar sua opinião. Ele dá sentido ao conteúdo
e direções para o aluno buscar soluções
para seus problemas; desta forma o aluno produz saber, pois faz relações
das informações já existentes com as novas. Esta
é o professor que Vygostsky cita como o ideal para o processo
de aprendizagem. (MOYSES, 1994)
Como vimos a dança está "dentro" das teorias
de ensino aprendizagem. Pois, ela relaciona o individuo com o ambiente
a sua volta e dá tarefas a ele para que busque informações,
reflita, relacione conhecimentos e chegue a uma conclusão. Isto
tudo ainda de forma divertida e prazerosa.
Então porque a dança está tão distante da
escola? Porque ainda é vista apenas como uma atividade de prazer?
Segundo Marques, no Brasil até a década de 80 eram poucas
escolas que ensinavam arte, e este ensino visava apenas as artes plásticas,
que também não possuíam qualidade.
Então Ana Mãe Babosa cria a proposta triangular: pensar,
fazer e entender arte; onde a arte entra no currículo escolar
como área de conhecimento.
Esta proposta gerou discussões sobre se a arte é realmente
conhecimento e o que seria este conhecimento. Então, não
é mais necessário só fazer arte, mas pensa-la e
entende-la. Os alunos deveram tornar-se fluidores de arte.
Durante os anos, a arte vai ganhando valor e em 1997 entra, finalmente,
nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN).
Como podemos ver a arte é nova dentro da educação;
ela sempre foi tratada como uma atividade a mais para distrair as crianças
e não como área de conhecimento. E a dança é
mais nova ainda.
Pois ao longo da história podemos ver que o pensamento de uma
sociedade leva tempo para mudar.
E o que podemos fazer é lutar para mostrar que dança não
é só movimento, mas também um pensamento; que se
dá através de um processo de corpo e mente.
Assim, talvez, daqui a alguns anos nossas crianças façam,
entendam e reflitam arte. E façam com que a dança cumpra
um de seus objetivos que é formar cidadãos.
REFERÊNCIAS:
ARAÚJO,
P. Dança na escola: uma educação pra lá
de física. Revista escola, setembro de 2005.
BARRETO,
D. Dança...ensino, sentidos e possibilidades na escola! Campinas:
Autores Associados, 2004.
BARTENIEFF,
I.; LEWIS, D. Body movement: coping with the environment. Amsterdam:
Gordon and Breach, 1997.
BECKER,
F. O ato pedagógico de ensinar e a produção do
conhecimento. Porto Alegre: Artmed, 2001.
BERTOLDI,
A., L., S. A influência do uso de dicas de aprendizagem na percepção
corporal de crianças portadoras de deficiência motora.
Curitiba, UFPR, 2004, Dissertação de Mestrado.
FERNANDES,
C. O corpo em movimento: o sistema Laban/Bartenieff na formação
e pesquisa em artes cênicas. São Paulo: Annablume, 2002.
GALLAHUE,
D., L.; OZMUN, J. C. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês,
crianças, adolescentes e adultos. São Paulo: Phorte, 2001.
LABAN,
R. V. Dança educativa moderna. São Paulo: Ícone,
1990.
PORTINARI,
M. História da dança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1989.
MARQUES,
I., A. Ensino da dança hoje: textos e contextos. São Paulo:
Cortez, 1999.
MOYSES,
L. O desafio de saber ensinar. Campinas: Universidade Federal Fluminense,
1994.
SACRISTÃN,
G. Compreender e transformar o ensino. 4 ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.
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