Isadora Duncan1

25/01/2005
Prosa de: Vitor Casado
Fonte: Prosa Solta

Ela desloca-se e rodopia na areia junto à orla do mar. Os braços abrem em cortesia com as echarpes ao vento. Ela dança imitando a natureza no seu respirar. Uma onda que desvanece ou a frágua que rebenta com gaivotas em redor.

Os vasos gregos dão-lhe visões de Dionísio celebrando com as bacantes. As mãos dadas com as demais bailarinas, os braços que afastam as echarpes feitas águias do movimento. Isadora dança celebrando a natureza, devolvendo-a à vida. No centro desta o plexo solar.


O mar, as ondas a cultura Helénica alcandorada no murmúrio de um qualquer búzio que a convide a dançar. As cordas de Beethoven e os pianos de Bach, sinfonias que Isadora rasga na areia com gestos. As echarpes colhem o vento no espaço que as suas mãos tacteiam. O tempo é infinito. Assim as imediações destes espaços pisados pelos seus pés serão por agora o Olimpo.

Rodin pretendeu da pedra esculpir-lhe o movimento. O corpo de Isadora é ágil a dançar; volutas, rasgos e queda. Indelével a mensagem que uma vida assim pode perpetuar. À noite Isadora recolhe-se massajando os pés. Sonha que um encantado os irá beijar meticulosamente noite após noite como prelúdio de amar. Se for generoso com eles não haverá barreiras ou recusas nas trocas de intimidade. Os pés de Isadora dispensam sapatilhas e são os seus intermediários para com a verticalidade. Isadora inaugurou a dança moderna desafiando os seus limites. Mãos, braços, pernas ,tronco e cabeça são coniventes.

As sinfonias clássicas integram estas respostas de equilíbrio.

Isadora dança onde quer que haja uma praia prenhe de mar ou um teatro grego pétreo e vazio. A história do mundo tem degraus no esculpir de movimentos que a bailarina desdobra para deleite visual.

Não, não há vazio nas paisagens sempre que as irís nos devolvem o horizonte com Isadora Duncan perene a dançar.

NOTAS:
1 Bailarina americana natural de são Francisco que viveu de 26/05/1877 a 14/09/1927. Inaugurou a dança moderna ao criar uma dança desprovida do rigor típico do ballet. Introduziu vestes finas e quase transparentes, e os pés descalços. Inspirou-se na Natureza, na cultura Grega e no Holismo a energia pessoal que constitui o plexo solar.