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Portfólio
de movimentos
in Poiesis,
XII (2005), 159-160.
14/12/2004
Prosa de: Vitor Casado
Fonte: Prosa a Solta
O olhar
fugiu-lhe para o portfólio de dança moderna constituído
por ensaios e performances executadas por ela a bom rigor. Pas_de_deux,
arabescos, attitude, saltos e quedas. Momentos de expansão revezam
com movimentos de contracção. Porquê a dança
como actividade à qual alguém se possa dedicar ?
Levou os dedos a passearem-se pela estante de livros dedicados ao tema.
Puxou um de Leonardo da Vinci. Fora este Humanista a primeira pessoa
a atribuir ao nosso corpo a responsabilidade de motricidade idêntica
à do nosso planeta. O mundo tem terra sustentada por rochas,
enquanto o nosso corpo tem carne sustentada pela estrutura óssea.
Os rios e os mares irrigam o mundo como o nosso sangue irriga os nossos
órgãos. O mundo tem um batimento rítmico que de
seis em seis dias renova as marés, enquanto em nós o coração
tem um ritmo cardíaco próprio.
Sim fora Leonardo quem lhe aprimorou a auto-estima. Afinal de contas
se um planeta é algo importante e identificável também
um corpo humano qualquer que seja possui essa mesma dignidade.
Ballet
ou dança moderna corporizam as possibilidades de um corpo. Júbilo,
fruição e fuga com ou sem música, com ou sem sentimento.
O palco é um espaço uma fábrica de formas e de
momentos. Corrida e paragem. O ciclo que se renova. Recolhimento no
solo e attitude ou o desejo de voar. Na sua quase impossibilidade serve
sempre o rodopiar.
Repôs o livro de Leonardo ao lado de um dos livros de Merce Cunningham,
o Teólogo da dança que dizem ter afastado a dança
da música e da coreografia. Perplexa ela investigou e descobriu
ser mentira. Merce lança a moeda ao ar antes de o espectáculo
começar para nesse instante decidir que coreografia ou liberdade
se adequam ao silêncio ou à música.
Pela secretária
recortes de jornais recentes falam-lhe de Vera Mantero e Rui Chafes
representantes de Portugal numa importante bienal de Artes plásticas
em São Paulo. Eles sintetizam um novo rumo da dança com
carimbo nacional. A união da dança com a escultura. A
união de gestos permanentes com gestos corporizados sempre renovados.
Para um pintor uma tela é pintada e o gesto consumiu-se no acto
de pintar. O que sobra é uma tela trabalhada. A dança
é ela própria a obra. Quando termina não há
suporte onde permanecer ao contrário da pintura. É por
isso que a dança é única. Usufrui-se no privilégio
do seu testemunho. Não a podemos levar para casa e dependurar
na parede da sala, ou do corredor.
As paredes
exercem censura e ainda assim não conformadas imitam a realidade
ocultada com pinturas ou outra decoração.
Foi a pensar nessa censura que a companhia de dança se orgulha
de executar os ensaios de primavera em praças públicas.
Falta apenas uma hora e ela mal pode esperar pelo ensaio. A penumbra
irá inundar a casa enquanto na praça os pombos irão
sacudir as asas irreverentes alcançando as estátuas e
os telhados.
As possibilidades
de um corpo dão-se a mostrar agora aqui na praça. Haverá
contudo portfólio porque há flashes a disparar. Os figurinos
avançam e arremessam os braços para logo os recuperar.
Contorcem-se os membros na brisa e no suor que o sol seca. As pessoas
passam e param para ver. Sentem-se incomodadas pelo ciúme de
um corpo quase esquecido, ocultado diariamente por roupagens. Apenas
lhes tem servido para o suporte dos sonhos quase sempre adiados.
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