QUANTO A DANÇA CONTEMPORÂNEA

A dança brasileira vive um bom momento! Isso é o que afirmam analistas e profissionais do meio. A dança contemporânea vem crescendo em proporções consideráveis; as danças populares presentes, sobretudo nas manifestações religiosas, vêm recebendo uma merecida atenção; assim como novos espaços tem sido conquistados pelos profissionais da dança. Um exemplo é a ênfase que escolas de formação em Artes Cênicas, tem dado a preparação corporal dos atores, incluindo em suas grades curriculares o maior numero de técnicas corporais também provindas da dança. Outro exemplo é a ocupação de espaços como empresas e associações comunitárias por parte desses profissionais.
Este novo quadro tem fomentado uma série de questões, tanto por parte de profissionais ligados diretamente ao processo criativo: coreógrafos, bailarinos e diretores, como também dos poucos jornalistas e veículos que formam o pequeno universo midiático da dança brasileira.
Dentre os três fenômenos citados, a Dança Contemporânea tem causado um certo furor. O que tem resultado mais freqüentemente na seguinte questão: nas últimas décadas, pudemos observar períodos nos quais algumas modalidades, como a Dança Moderna, o Jazz e por último a Street Dance, tiveram uma repercussão maior até que os festivais que as promoviam. O fato é que estas modalidades não se firmaram, foram apenas 'modismos'. Agora vivemos momento da dança contemporânea, e todos se questionam se ela não será apenas mais um modismo.
Creio, que por mais repetitivo que os acontecimentos possam parecer, nos causando uma percepção cíclica da história, não devemos nos deixar seduzir pela mecânica comparação entre o fenômeno da dança contemporânea e os anteriores. É claro que alguém que tenha se mantido "relativamente" atento aos acontecimentos que permeiam o núcleo da dança brasileira, é capaz de exprimir uma opinião sobre o tema. No entanto, hoje não é possível avançar na discussão apenas pela experiência no "meio" dança. É preciso também se manter atento a fatos periféricos, aspectos outros - econômicos, políticos, científicos, pois eles têm interferência direta na alteração ocorrida. Dentre todos - e não me proponho aqui a levantá-los em sua totalidade - dois merecem especial atenção.

De dentro da Caixa (eventos ligados diretamente à dança)
O primeiro se refere a decadência de um modelo de festival, que vinha se mantendo hegemônico a cerca de duas décadas. Começando pelo Encontro Nacional de Dança, o ENDA (pai de todos), passando pelo Festival de Joinville, e chegando ao Festival de Dança do Triângulo e demais festivais herdeiros deste modelo.
O início de sua vida é marcado pelo boom! Do culto ao corpo ocorrido na década de 1980, o que leva um grande número de pessoas a procurar pela dança, já que estas, não se sentem à vontade trabalhando o físico através das aulas disponíveis nas academias - Musculação, Ginástica. A existência naquele momento de um grande número de pessoas ávidas pelo consumo da dança é um dos responsáveis pelo "pipocar" de eventos como estes por todo o país.
O seu ápice se dá na primeira metade da década de 1990, em um momento onde praticamente não se tinha nenhuma outra opção para se dar vazão à produção da dança, a não ser os festivais que adotavam o modelo hegemônico. Apesar da aparência que os festivais causavam, devido a quantidade de pessoas presentes quase que freqüentemente nestes eventos. Não havia um público formado, e sim, uma série de consumidores de técnicas corporais provindas da dança, e que também eram freqüentadores destes mega eventos.
O seu declínio começa a se dar, na medida em que vão surgindo nas academias, novas possibilidades para se manter "sarado", aulas como Body Pump, Tay Bo e RPM abarcam uma demanda que em outro momento seria da dança; o seu caráter amador também interferiu em sua manutenção, já que ele dá conta da produção de escolas e grupos amadores. Mas, não realiza o mesmo, no que se refere a produção profissional. Nesse sentido, os festivais detentores deste modelo têm sido obrigados a se repensar, a fim de se adaptar a uma nova realidade. Pois, só dessa forma tem conseguido sobreviver.

Do lado de fora da caixa (O contexto dessa tal Dança Contemporânea)
Simultaneamente ao declínio do modelo supracitado, podemos constatar que o complexo processo de intelectualização que se percebe na sociedade contemporânea tem interferido diretamente no processo de criação, assim como no resultado final do produto - como veremos não só estético.
Pierre Levy em Cibercultura, nos apresenta um importante dado à análise desse processo. A emergência do "Ciberespaço" ou simplesmente da "Rede", que seria o "o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial de todos os computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital. Mas também o universo oceânico informações que ele abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo". O neologismo Cibercultura, diz respeito ao conjunto de técnicas, práticas, atitudes, modos de pensamento e valores disseminados com o crescimento do Ciberespaço.
Scott Lash em Modernidade Reflexiva ao analisar as teorias da Modernidade de Antony Giddens e Ulrich Beck, concorda que a ação tem se desprendido progressivamente da estrutura, mas alerta que isso se dá concomitantemente, ao surgimento de uma nova estrutura. Uma estrutura que obriga a ação ser livre "no sentido de que a acumulação estrutural do capital só é possível conquanto a ação consiga se libertar das estruturas 'fordistas' limitadas por regras". Esta nova estrutura para Lash é o entrelaçamento articulado de redes globais e locais de estruturas de informação e comunicação.
No universo da produção de bens materiais. Ao contrário do que se nota a partir da primeira década do século XX, com o modelo fordista de acumulação baseado em uma produção maciça de mercadorias, mais homogeneizado e com uma enorme verticalidade. A etapa atual do Capitalismo tem-se baseado em um consumo mais especializado, o que tem gerado uma produção flexibilizada e uma constante necessidade de inovação. Acarretando um deslocamento muito maior de trabalho para o "processo de projeção", e uma menor quantidade para o "processo de trabalho manual".
Para alguns autores Marxistas o cenário que se monta, não é nada mais do que a concretização de uma tendência do Capitalismo já apontada por Karl Marx em seus escritos. Ou seja, a intensificação do processo de valorização do trabalho intelectual (abstrato) em detrimento do trabalho material (concreto).

Estourando a Caixa
Para alguns pensadores do nosso tempo, as características do mercado atual, somada as estruturas de informação e comunicação têm resultado em indivíduos com uma maior "probabilidade" de agirem reflexivamente. Nas Artes, o cenário que se monta - com circulação de informações em alta velocidade - privilegia a estética componente das Artes Conceituais. Sendo assim, trabalhos de artistas como Pina Bauch, Mag Mary e Win Vandekeybos, se tornam referências no meio. Uma das conseqüências que a mudança de referencial tem causado na dança brasileira, é que as obras produzidas neste contexto não cabem no modelo habitual de eventos realizados no país. O que resulta na necessidade de se elaborar outros modelos de festivais, que consigam ao mesmo tempo em que fomentam a produção nascente, também fazê-la circular.
É então, devido a estes dois dados, que a Dança Contemporânea não pode ser comparada ao "modismo" da Dança Moderna, do Jazz ou da Street Dance. Pois, ela não se dá apoiada no modelo de festival que as outras se deram. Segundo, a necessidade de sua produção, não vem apenas do meio dança, ela ultrapassa-o, é uma característica do nosso tempo, condicionada não apenas por uma necessidade estética, mas propiciada por uma condição estrutural.


Vanilton Lakka
Graduando de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia
coreógrafo, bailarino e pesquisador

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