Reflexões Sobre a Produção Contemporânea
Por Vanilton Lakka
O que é
Modernidade? Ela já acabou? Aquela coreografia é Dança
Moderna, de Rua ou Contemporânea? Eu sou moderno? Eu sou modernista? Isso
é dança. Tem certeza?
Estas questões são freqüentes ao final de espetáculos
denominados como Dança Contemporânea, principalmente quando eles
são apresentados em festivais onde se encontra um público com
variada formação.
Um das razões responsáveis por tal confusão tem sido a
interpretação equivocada de uma idéia bastante disseminada
não só no meio acadêmico, mas também em boa parte
do senso comum. A idéia de que a arte reflete ou expressa a sociedade
e o tempo em que se insere. A seguir proponho algumas questões a respeito.
O Ambiente
O Aurélio nos informa que contemporâneo é "do mesmo
tempo ou do nosso tempo". Portanto, trabalhos contemporâneos de dança,
seriam trabalhos realizados no mesmo período, ou em um período
aproximado. Vejamos. Quando avaliamos a remontagem de "Giselle" (Ballet
romântico apresentado pela primeira vez na Ópera de Paris em 28
de Junho de 1841) apresentada pelo Kirov Ballet no século 20, e contrastando-a
a com "Ta Limpo" (coreografia de Breakdance montada por Niels Storm
para o grupo Discípulos do Ritmo de São Paulo). Podemos tirar
algumas conclusões:
Os dois trabalhos são contemporâneos pois, os corpos que dançam
são corpos que vivem em um ambiente capitalista, pós-industrial
e com grande bombardeio de informações. Por mais que o corpo de
um bailarino clássico seja treinado por uma tradição técnica
de Dança Clássica, e o corpo de um dançarino de Breakdance
seja treinado por uma tradição de técnicas de Dança
de Rua, ainda sim, o macro ambiente contemporâneo apresentado afeta os
dois, talvez em níveis diferentes e de formas diferentes, mas os dois.
Portanto, desse ponto de vista, os dois são trabalhos contemporâneos
de dança, mas atenção, nem por isso podem ser classificados
como iguais.
O Efêmero
A Dança
assim como a Mímica, a Ópera, o Teatro e o Circo pertencem a um
ramo das artes denominadas de "Artes Dinâmicas", marcadas pela
sua efemeridade, característica não encontrada nas Artes Visuais
ou na Arquitetura, denominadas como "Artes Estáticas", caracterizadas
pela durabilidade das obras.
Ao constatarmos que uma coreografia é classificada como uma obra de arte
dinâmica, e não estática, conclui-se logo que, por mais
que haja ensaio, por mais que haja repetição e, por mais que supostamente,
uma coreografia seja apresentada inúmeras vezes, ela "nunca"
será a mesma. Assim, a idéia de que a coreografia apresentada
será sempre a mesma não passará de uma suposição.
Na realidade, nunca acontece, pois, sua própria natureza passageira e
transitória impede essa efetivação.
E, é por isso também, que uma remontagem de Giselle é tão
contemporânea quanto uma coreografia de Breakdance. Mas, nem por isso
iguais.
Ossificadas Divisões
No universo das artes há uma tradicional divisão que não
podemos perder de vista, ela está divida em um primeiro momento histórico
em: Arte Popular e Arte Erudita. Posteriormente, percebemos o surgimento de
uma segunda divisão, da Arte Comercial ou de Massa e a Arte Experimental.
Portanto, um trabalho de Breakdance é tão contemporâneo
quanto a remontagem de Giselle, por motivos apresentados anteriormente, mas
definitivamente não podem ser classificados/colocados no mesmo "saco",
pois a Breakdance é Dança Popular e Ballet Clássico é,
e será sempre Dança Erudita. Representam portanto, universos diferentes,
valores diferentes e defendem objetivos e ideologias distintas.
Contemporâneo e Pós-Moderno
Na seqüência,
interessa pensar a respeito do movimento Pós-Moderno, e para isso, se
faz necessário partir da noção de Moderno. A idéia
de Modernidade começa a tomar corpo na primeira fase do início
do século XVI, nesta fase as pessoas começam a ter contato com
a experiência da modernidade, mas o número destas ainda é
pequeno. A partir de 1790, com a Revolução Francesa, a experiência
da modernidade se expande radicalmente a um grande público. Este mundo
moderno traz consigo sua dinâmica e suas significações,
representando compartilhamento de uma era revolucionária que contagia
rapidamente todos os níveis da vida pessoal, social e política.
Em resumo, Modernização diz respeito a toda transformação
técnico-industrial que ocorre no mundo, e a aceleração
que isso ocasiona. E Modernismo diz respeito a todo pensamento surgido a partir,
e sobre este processo. Incluindo as Artes e as Ciências.
O Movimento Pós-Moderno é, para alguns, algo posterior a era moderna
- parece óbvio. Para outros, a Pós-Modernidade é um momento
de transição entre a Modernidade e o que virá após
a Modernidade. É, portanto, algo diferente da modernidade, ao mesmo tempo
em que não deixa de sê-la. Para outros, ainda, ela é apenas
um outro período da Modernidade, sendo assim, não faz sentido
classificá-la como outra coisa. Posicionamentos a parte, tentaremos traçar
um diferencial entre Dança Moderna e Dança Contemporânea
(prefiro já chamá-la de Dança Pós-Moderna).
A Dança Moderna se apresenta ao mundo no inicio do século XX em
meio à 1º Guerra Mundial. Em um período de efervescentes
mudanças sociais e políticas, a dança não poderia
mais apresentar obras totalmente descoladas da realidade, não era mais
possível dançar somente o etéreo. A partir de agora o componente
psicológico deveria sempre prevalecer na escolha temática, era
preciso dançar o homem em sua verdadeira condição, suas
conquistas e suas angustias.
Dessa forma, a Dança Moderna propiciou à Dança radicais
transformações em termos de novos padrões de movimentação,
novas possibilidades técnicas, novas propostas de treinamento, métodos
novos de criação e também um novo arsenal conceitual.
A interpretação da Dança Pós-Moderna, assim como
da Dança Moderna traz consigo a idéia de arte como reflexo do
seu tempo. Sendo assim, é comum encontramos teóricos citando características
da contemporaneidade tais como, o império da imagem na percepção
da realidade e a velocidade dos nossos tempos, tendo como alguns de seus mais
fiéis representantes o Vídeo-clip e a Internet.
Não há como discordar que as características do nosso tempo
afetam diretamente o produto estético do período, mas a questão
é: de que forma?
Não Estamos Presos no Nosso Tempo?
Eliane Rodrigues,
Doutora em Artes Cênicas pela UFBA, em seu texto "A Trajetória
Dialética da Dança Pós-Moderna", afirma, que o que
tem sido considerada como arte contemporânea pode ser constatada em outros
períodos da história em outras linguagens, no que ela chama de
vultos de Pós-Modernidade.
A autora, a fim de exemplificar, primeiro enumera os traços que ela reconhece
como freqüentes e, portanto definidores do que venha a ser arte do tipo
Pós-Moderna: "fragmentação, multiplicidade, justaposição,
da repetição, do uso constante de referências de épocas
diversas, da experimentação exaustiva, da ousadia em ironizar
o modus vivendi, da relevância da arte popular" .
Em segundo, ela cita obras de outras áreas artísticas, em outros
períodos históricos, reconhecendo nestes, os traços acima
apresentados presentes na Arte Pós-moderna. Este é o caso de Johann
Sebastian Bach criando em 1730, estruturas polifônicas onde a justaposição
e a pluralidade de vozes são muito claras. Ou mesmo na Arquitetura, quando
Antonio Gaudí inicia na Espanha uma obra que tem como data inicial o
ano 1880, e possuía como principal característica a experimentação
livre e a diversidade de códigos.
Na Dança, o fato de termos notícias de obras com tais características
apenas ao fim do século XIX, diz respeito ao fato do Ballet Clássico
ter ocupado papel de destaque, sendo reconhecida durante muito tempo como única
forma de se produzir dança séria. Além disso, por mais
que tenha existido um outro tipo de dança no período, não
saberíamos pois, não se configurou enquanto uma nova tradição,
somando-se a isso a inexistência de formas de registro de Dança.
Isso leva a crer, que os trabalhos que chamamos de Arte Pós-Moderna não
o são apenas por serem realizados após a Modernidade, mas também,
por apresentarem determinados traços que os definem assim. E é
por isso que nem a coreografia dos Discípulos do Ritmo, e nem as remontagens
do Kirov Ballet não são Dança Contemporânea, entendidos
aqui como trabalhos de Arte Pós-Moderna.
A confusão que trabalhos de Dança Contemporânea causam,
quando avaliados em contraposição a trabalhos de Dança
de Rua, Jazz, Dança Moderna ou mesmo Danças Folclóricas.
È inteligível, na medida que compreendermos que a própria
lógica organizacional de obras Pós-Modernas possibilitam o cruzamento
de elementos de vários estilos e de várias linguagens. No entanto,
apesar de apresentarem elementos comuns, não dão o mesmo tratamento
aos mesmos, pois, a Arte Pós-Moderna possuí sua própria
lógica e forma de tratamento dos elementos.
(voltando ao início) A idéia de que a arte reflete ou expressa a sociedade e o tempo em que se insere.
Por fim, se faz
necessário usar Marx, para ele as idéias dominantes de um tempo
são as idéias da classe dominante, ou, de uma determinada fração
da classe dominante. Isto sugere que, por mais que aparentemente haja apenas
aquele conjunto de idéias, ou só aquela forma de pensar determinadas
questões, isto é apenas ilusão. Na verdade, convivem simultaneamente
com esta forma de ver o mundo, outras de menos destaque. Para entendermos, o
que talvez Eliane Rodrigues encontrou trocaremos o termo forma de ver o mundo
ou visão de mundo - termo Gramisciano - por Universo Estético.
Considerando as obras levantadas por Rodrigues, conclui-se que o Universo Estético
ao qual elas representam, não é o dominante no período
ao qual surge a obra. Como o próprio termo utilizado pela autora, é
apenas um vulto, não faz parte do Universo Estético dominante,
denunciando, portanto, a existência já nestes períodos,
de obras com as características do que hoje entendemos de Arte Pós-Moderna.
Possibilidades...
A partir das referências apresentadas pela autora, proponho duas possibilidades
de leitura da idéia de que a arte reflete ou expressa a sociedade em
que se insere.
Primeiro, o ambiente contemporâneo apenas propicia a um tipo de arte (um
tipo de organização estética) 'já existente', condições
históricas para emergir como estética ganhadora neste momento
de destaque.
Ou, segundo, o que Rodrigues chama de vultos de Arte Pós-Moderna, seriam
apenas coincidências simbólicas comuns em nossa história,
não constituindo, portanto, um reflexo estético de visões
de mundo e ideologias existentes - mas não dominantes no sentido exposto
por Marx. Sendo assim, o ambiente contemporâneo não apenas 'evidencia'
um tipo de arte já existente, só que praticamente sem destaque.
Mas, faz 'surgir' um novo tipo de arte.
Conclusões
A problemática da Dança Pós-Moderna se encontra ainda em uma etapa inicial, e como em toda importante questão há equívocos iniciais, assim como respostas ingênuas ou mesmo simplórias - como a afirmação que Dança Contemporânea é tudo o que é produzido na contemporaneidade - que são comuns e compreensíveis nestes momentos. Talvez, ainda nos falte um distanciamento histórico, para que possamos obter mais clareza em nossas formulações a respeito da questão.
Bibliografia
RODRIGUES, Eliane. "A Trajetória Dialética da Dança
Pós-Moderna" In: Repertório Teatro e Dança - Programa
de Pós-Graduação em Artes Cênicas - Universidade
Federal da Bahia - Salvador - BA Ano 2 n° 3 1999.
BERMAN, Marshall. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar - Ed. Companhia
das Letras, São Paulo-SP, 1993. 362 págs.
JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1997.
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