Regina Nejman: A dança como expressão de uma vida

por Ivaldo Costa
FONTE: The Brasilians (NYC/EUA) edição março-abril/06

Uma paixão de criança que virou o amor de uma vida. Essa é a trajetória da coregráfa Regina Nejman, que está levando o show Velocity of Things - vencedor do prêmio de melhor coreografia do New York Fringe Festival - para o Teatro Cacilda Becker, depois de duas temporadas de sucesso em Nova York.

Paixão de criança, Regina Nejman, aos três anos já dançava em casa e encantava-se com o carnaval de rua (ela cresceu em Copacabana). “Meu pai tem vídeos comigo dançando desde muito pequena”, recorda a bailarina. Porém seu caminho na verdade começou pela ginástica olímpica, sendo o balé um acidente de percursso. Começou a treinar aos 13 anos e ficou até aos 15 no Fluminense. Procurando aprimorar os movimentos do seu solo na ginástica, entrou para o balé clássico. O interesse imediatamente transferiu-se para a dança e o Campeonato Brasileiro de Ginástica cedeu lugar a INEARTE, a escola de Balé do Teatro Municipal, onde formou-se em 1981. Aos 18 anos ganhou bolsa para o Joeffrey Ballet School e passou a trabalhar para várias companhias nos EUA, para onde se transferiu.

Em 1983, foi visitar um amigo em Telaviv e acabou fazendo audição para o Batdor Dance Company, onde passou a dançar o balé moderno. Depois de um ano em Israel, ficou em Paris estudando e trabalhando por seis meses antes de voltar para Nova York em 1986. Aqui dedicou-se exclusivamente ao balé moderno ao conquistar uma bolsa de estudo por dois anos na Alvin Ailey Dance School. No final de 1986, transferiu-se para o Colorado, onde integrou a companhia de dança da Clio Parker New Dance Theatre e decidiu radicar-se em Nova York onde entrou para a Cia. Donald Byrd em 1992.

No ano de 1993, decidiu partir para a carreira solo. “Os trabalhos de audição já não me satisfaziam mais e passei a procurar a minha própria linguagem”, esclarece. Neste mesmo ano criou seu primeiro solo, Above Water, que foi aceito em algumas mostras de dança. A partir daí criou outros solos, arriscou duetos e passou a apresentar os seus shows em Downtown Manhattan e a lecionar na New Jersey City Univer-sity e no programa de verão da Harvard em 1994.

Com o patrocínio de organizações locais que suportam coreógrafos independentes, realizou em 1997 sua primeira grande produção, com sete bailarinos, e estreiou no Contact Studio, que na época ainda se chamava Faisca e Others Dances. O show incentivou a criação, em 1999, de A Flor da Pele – On the Surface of the Skin – e, em 2002, alicerçou seu reconhecimen-to como coreógrafa ao lançar o espetáculo Maria vai com as outras, que criou para o Merce Cun-ningham Studio e que foi aceita para o New York Fringe Festival em agosto daquele ano. Tornou-se famosa, com página no New York Times, Village Voice e outros jornais da Big Apple.

Paralelamente ao ofício de lecionar, em 2003, lançou no Joyce SoHo Theatre, Leave Yourself at the Door, Please! Voltou a surpre-ender em 2005 com o lançamento de Velocity of Things, onde ganhou o prêmio de melhor coreografia no New York Fringe Festival e foi apresentado também no PS 122. O show é um grande sucesso e voltou ao Joyce SoHo em fevereiro deste ano. Ele será reapresentado no Jacob’s Pillow, localizado em Lee, Massachus-sets, em julho, e será apresentado no Teatro Cacilda Becker, no Rio de Janeiro, entre 18 a 21 de maio. Regina Nejman vai, ainda, dançar o solo de Leave Yourself at the Door, Please! Nos dias 5 e 6 de maio na mostra de dança do Joe’s Pub.

Velocidade das Coisas revela a magia dos contrastes

Velocity of Things revela a síntese entre a rapidez energética de Nova York e os dias mais lentos e longos do Rio de Janeiro. Regina Nejman parte de dois opostos para criar uma expressão física, visual e cinética. Na criação aparece aos poucos a música, outra grande paixão da artista (ela toca violão), que se alia aos movimentos criados naquele momento. As idéias surgem de diversas formas, às vezes nos ensaios através da experimentação, onde vão se lapidando e consolidando.

O resultado é a integração, a comple-mentariedade que une opostos para cirar um ambiente sem narrativa direta. “Como o tempo, as cenas vêm de vários cantos, mas estão todas amarradas dentro da comunidade dessas pessoas que geram uma narrativa não linear e que se metamorfoseia como em um sonho. São minutos materializados em cenas que vão contando sua história dentro de outras histórias”, afirma.

A música também se integra à dança, obviamente, e mostram a diversidade de ritmos musicais, que vão desde o forró, passando pelo chorinho, destaques da MPB até músicas americanas, complementadas pelas canções originais de Mio Morales. Juntas, dança e música criam o ambiente que nos transporta para sucessivos momentos mágicos.