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MELHORES
DE 2005 - Quem forma os artistas?
Ao mesmo tempo em que muitos professores estão compartilhando com os alunos uma dita arte de ponta, a forma como fazem isso (ou seja, a metodologia) é muitas vezes arcaica, conservadora e sem fundamento.
(Este é
o décimo artigo do especial de Arte & Educação
que lançamos em 2005. Ao pé do texto, há links
para a série completa) Se essa for mesmo a verdade, vale perguntar: onde então se formam os artistas? Quem é responsável pela educação daqueles que querem seguir a Arte como carreira profissional? A resposta mais imediata é: na vida e na lida; mais contemporaneamente se diria nas universidades. Diante dessa última resposta, mais recente, vale perguntar: se não tivermos um ensino consistente e de qualidade na área de Arte na escolarização inicial, como os alunos chegarão às universidades, aos cursos superiores de Arte? Para conseguir uma vaga na universidade, alguns cursos exigem uma Prova de Aptidão. Onde se preparam esses candidatos? Mesmo que não haja prova de aptidão, ou que os exames sejam flexibilizados em função da realidade, os alunos que chegam ao primeiro ano da universidade muitas vezes estão totalmente desprovidos do básico na área de Arte, desconhecem os conceitos e as práticas elementares na área de atuação escolhida, têm enorme defasagem em relação às áreas de conhecimento teóricas que entrelaçam as práticas artísticas. A entrada de muitos candidatos futuros artistas e/ou professores de Arte - nos cursos superiores de Arte nem sempre é, como em outras áreas do conhecimento, uma continuidade do aprendizado do Ensino Fundamental e Médio. Dá-se o contrário; não raramente os cursos superiores de Arte têm de começar de novo, iniciar um processo quase do zero e, quando é possível, faz-se uma retomada completa do pouquíssimo que os alunos aprenderam nas séries anteriores do ensino. Professores, pesquisadores, mestres e doutores deparam-se com o vazio, com a inocuidade, com terreno muitas vezes fértil, mas não arado, trazido pelos alunos. As dificuldades são imensas e freqüentemente os professores não têm outra alternativa senão nivelar por baixo e abaixar substancialmente as expectativas daquilo que poderiam estar ensinando e compartilhando com os alunos no Ensino Superior. Claro, não é isso que acontece em outras áreas do conhecimento: no primeiro ano de Matemática, por exemplo, os alunos não aprendem de novo a multiplicar, trabalhar com raízes e matrizes, não fazem revisão das equações de segundo grau; os alunos de Geografia não aprendem a localização da África, o mapa físico da Europa; os alunos de Física não voltam a rever os conceitos de velocidade média, aceleração constante etc. estes conteúdos já são pressupostos de quem passou no vestibular, ou seja, são pressupostos de um aprendizado anterior oferecido pela escolarização básica. Vale ressaltar: os alunos dos cursos citados que, mesmo tendo passado no vestibular, ainda apresentam defasagem de conteúdo básico devem buscar recuperação fora da universidade. E mais: esses alunos têm aonde e a quem recorrer. Por que com a Arte é diferente? Talvez seja porque continuamos acreditando que na escola, não se formam artistas. Ou seja, não existe um básico, um conhecimento mínimo, uma introdução consistente nas diversas linguagens artísticas e nas relações dessas linguagens com o contexto histórico-social que permita aos alunos ingressarem os cursos superiores de Arte com possibilidade de dar continuidade aos estudos. Em muitos casos, não há o que continuar. Em vista disso, muitas vezes, o próprio ensino universitário está voltado para o básico, para os conhecimentos iniciais teóricos e práticos - de cada linguagem. Quando os alunos ingressam os cursos superiores de Arte, já tendo alguma formação específica. Em geral, ela foi adquirida em academias e escolas de dança, conservatórios de música ou cursos livres, em entidades ou em associações. Acontece que, nas academias, nos conservatórios, nos cursos livres, o aprendizado da Arte nem sempre é voltado para a amplitude de conhecimento que a arte abarca são apreendidas, quando muito, somente técnicas (para dançar, para tocar, para atuar, para pintar ou modelar). O conhecimento de arte fora da escola básica é, em geral, focado, pontual, direcionado para um código, uma especialidade, um modelo de fazer arte. Tanto um caso como o outro é bem preocupante. Ao ingressarem em um curso de Física, de Biologia, de Medicina etc., os alunos têm como perspectiva o aprofundamento, o aperfeiçoamento, a ampliação crítica do conhecimento específico; os alunos vislumbram gerar novas pesquisas, fundamentadas, elaboradas, tecidas consistentemente com base em metodologias e teorias renovadas e renovadoras. E na área de Arte? Se o conhecimento inicial dos alunos a julgar pelo Ensino Fundamental e Médio - ainda é bem duvidoso e inconsistente, como aprofundar, aperfeiçoar, ampliar, pesquisar, produzir em nível universitário? Voltamos à pergunta inicial: será mesmo que na escola não se formam/ensinam artistas? Por que não devemos pensar desde cedo naqueles que se tornarão artistas? Será que porque nas escolas básicas ainda persiste a idéia de que o conhecimento em Arte, a formação artística é somente fruto do talento? Do dom, do ter jeito para a coisa? Ou seja, será que não temos que ensinar conteúdos específicos de Arte, pois quem é artista já nasce artista, e pronto? Ou seja, quem nasce artista vai seguir carreira e fazer arte a despeito da escola? Antes de passarmos adiante, não podemos deixar de perguntar porque ainda perpetua em grande escala a fala de que nas escolas a Arte não deveria ser para todos, contradizendo a legislação atual. Mas, se os futuros artistas devem aprender Matemática, Física, Geografia etc, por serem instrumentos imprescindíveis de compreensão do mundo, por que os futuros matemáticos, físicos, geógrafos não deveriam aprender Arte, que é também área de conhecimento? Voltemos às universidades e à formação dos artistas e professores de Arte. Pensar a complexidade do ensino universitário é tarefa longa e muitas vezes ingrata. Aqui, limitaremo-nos a refletir um pouco de forma não exaustiva sobre as relações iniciais que se estabelecem entre as propostas e práticas de Arte do Ensino Fundamental e Médio e os cursos superiores de Arte. Pensemos, a título de exercício: e se as pesquisas, os parâmetros, as diretrizes, os programas já existentes fossem seguidos e os alunos tivessem tido aulas consistentes de Arte nas escolas como sugerem essas pesquisas e documentos oficiais? Com certeza, os alunos de Dança não chegariam às universidades ignorando os conceitos elementares, por exemplo, de níveis do espaço, de dinâmicas, de anatomia etc. Os alunos de Teatro já teriam jogado tanto que, na universidade, os Jogos Teatrais seriam elaboradíssimos e não mais uma introdução aos conceitos de Jogo. Os alunos de Música não precisariam (re)ver a História da Música. As Artes Visuais poderiam ter um salto qualitativo no sentido de criar redes de relações entre as diversas linguagens, elaborar propostas artísticas em pesquisa multidisciplinar. No Ensino Superior, esses alunos estariam, sim, aprofundando esses conceitos, as relações entre eles e as possibilidades de conhecimento das linguagens artísticas. Resta-nos perguntar se as universidades estariam preparadas para receber futuros artistas e/ou professores de Arte com formação básica consistente, elaborada, crítica, transformadora. Um ensino articulado, crítico, tecido entre os pilares da arte e da sociedade, vislumbrando algo além do aprimoramento técnico e do aprendizado de repertórios muitas vezes não faz parte dos cursos universitários. Um ensino com metodologia problematizadora, inovadora, transformadora, integrada e crítica, muitas vezes está longe do alcance dos professores universitários que não se preocupam com a Pedagogia da Arte, pois isso é bobagem da Licenciatura. Os professores, gurus, artistas, muitas vezes acabam perpetuando um ensino conservador, arcaico e sem vínculo nenhum com o mundo em constante movimento da arte e do ensino em sociedade. Voltamos a uma pergunta já discutida: basta ser artista para ser professor? Ou no Ensino Superior isso é diferente? Por que é diferente? Será que o aluno universitário está além das questões e das propostas pedagógicas consistentes desenvolvidas por pesquisadores nas últimas décadas? Por que o Ensino Superior, em sua grande maioria, ignora as pesquisas pedagógicas na área de Arte? É claro que existem muitos cursos universitários que já pensam a Pedagogia da Arte tanto nos cursos de Licenciatura quanto nos cursos de Bacharelado; já existem propostas em cursos superiores que entendem que o artista que ensina deve se preocupar também com o ensino, com as questões metodológicas, com a construção do projeto, mas infelizmente essa ainda não é a tônica geral. Com a justificativa de que estamos na universidade, ou de que estamos formando futuros profissionais, professores mergulham em contradições e paradoxos tão abissais que desmantelam a formação dos alunos. Ao mesmo tempo em que muitos professores estão compartilhando com os alunos uma dita arte de ponta, a forma como fazem isso (ou seja, a metodologia) é muitas vezes arcaica, conservadora e sem fundamento. Ou seja, abolem-se (ou desconhecem-se) as práticas problematizadoras, articuladoras, tecidas criticamente em trabalho dialógico entre professor e aluno,- já tão elaboradas por pesquisadores e por muitos professores do Ensino Fundamental e Médio - em prol da eficiência, do treino, do aprendizado rápido da arte. Aulas de dança nas universidades muitas vezes se tornam meras e exaustivas repetições de seqüências apresentadas pelos professores. As aulas de instrumento tornam-se enfadonhos ensaios de repertórios sem relação nenhuma com os cursos de Harmonia, de Composição nos cursos superiores de Música. As aulas de voz são muitas vezes redundantes repetições de técnicas vocais que não se relacionam sequer com as produções teatrais em andamento dos alunos. A repetição exaustiva sem compreensão, sem relação, sem fundamentação justifica-se pelo fato de que os alunos não têm técnica, são material humano fraco. O ato reprodutor, alienador, pacificador - modo ingênuo de ensinar arte - há décadas foi praticamente abolido das escolas de Ensino Fundamental e Médio minimamente atualizadas e comprometidas com a educação. No entanto, são modelos utilizados e sustentados por muitos professores do Ensino Superior. Ingenuidade? Ignorância? Opção? Única saída? Além da mera reprodução, há professores que ainda levam os alunos universitários a mergulhar em profundas viagens ao mundo interior; choram, compadecem-se, estilhaçam-se, fazem o que vem à cabeça com a justificativa da experiência, da vivência, da necessidade do artista soltar-se, conhecer-se. Outras vezes, manipulam materiais por manipular, para sentir, para entrar em contato profundo com o ser da coisa. Ou seja, novamente, aquilo que já foi arduamente criticado em termos de prática de ensino de Arte para crianças e jovens é permitido e exaltado em alguns segmentos do Ensino Superior. Será que essas abordagens de ensino a tradicional e o laissez-faire justificam-se pelo fato de se tratar do Ensino Superior, de adultos profissionalizando-se? Será que a formação do adulto, futuro profissional na área de Arte, deve ignorar as pesquisas e as práticas recentes para o ensino de Arte no que diz respeito a como se dá o ato de ensinar? Vale a mesma pergunta freqüentemente feita aos professores de Arte do Ensino Fundamental e Médio: queremos formar artistas ou formar cidadãos? Acreditamos que, tanto no Ensino Fundamental e Médio quanto no Ensino Superior, devemos priorizar, sim, a formação de artistas-cidadãos. Devemos preocupar-nos tanto com a formação específica, aprofundada e consistente de cada linguagem artística como com a educação de indivíduos que vivem e atuam em sociedade e que podem trabalhar com Arte de forma crítica e comprometida com a compreensão e transformação da realidade que vivemos. (*) Isabel Marques e Fábio Brazil , professores e artistas, dirigem o Caleidos Arte e Ensino em São Paulo, capital, ministrando cursos e prestando assessoria a secretarias de educação, escolas públicas e privadas nas áreas de dança e poesia. |
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