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Mas
afinal, arte para quê?
Urge reconhecer o quanto do conhecimento, das leituras de mundo, das impressões e expressões da humanidade está registrado pela arte, representado pela arte, concretizado numa obra de arte, mobilizado no fazer artístico. Isabel
Marques e Fábio Brazil Sensacional
o número de respostas que recebemos na abertura desta coluna
com o artigo Arte & Ensino: professores de arte, alunos e professores
universitários, mães, pais, artistas, todos deram seu
recado e fizeram questão de frisar a importância do assunto
e narrar boas, más ou nenhuma lembrança de seus professores
de arte da infância. Se a arte na escola fosse realmente dispensável,
não teríamos tido um retorno tão contundente! A pergunta pode parecer absurda e ridícula para aqueles já convencidos da necessidade de termos Arte como uma componente curricular, mas não é. Se nós, os já convencidos, não formos capazes de responder clara e precisamente a essa questão, os não-convencidos ou aqueles que diluem Arte em Desenho Geométrico terão toda liberdade de desprezá-la, de não valorizá-la e, até mesmo, de pleitear o seu fim. Podemos começar a conversa aceitando o fato de que, lamentavelmente, em muitas escolas, os professores e a matéria de Arte são mesmo dispensáveis (assim como muitos professores de matemática, geografia e inglês também!), pois não têm compromisso com o ensino, respeito pelos alunos e muito menos conhecimento específico de arte em si. Por outro lado, quando temos contato com trabalhos sérios realizados por professores de Arte temos certeza absoluta do quão indispensável é esta área do conhecimento nas escolas e do quanto foram transformados os alunos que participaram destes processos de construção do conhecimento. Talvez caiba novamente uma pergunta será que aqueles que não valorizam a arte na escola realmente tiveram acesso ao universo da arte e do artista por meio de seus professores? Eis um primeiro bom motivo inicial para a presença da arte na escola: acesso. Qualquer pessoa pode reconhecer o quanto do conhecimento, das leituras de mundo, das impressões e expressões da humanidade está registrado pela arte, representado pela arte, concretizado numa obra de arte, mobilizado no fazer artístico. Pois bem: ter Arte na escola é dar acesso a todas as crianças, jovens e adultos a esse conhecimento, sistematizando as diferentes linguagens que nos possibilitam interagir no mundo de uma forma diferente e diferenciada. Surgem daí, duas questões - nossos interlocutores que desprezam o ensino de Arte nas escolas estão interessados em leituras múltiplas e diálogos críticos com o mundo em que vivemos? - Nossos professores de Arte, estão preparados para exercer o papel de articuladores do conhecimento e sistematizador de linguagens? Já existem muitas teses, livros e artigos que argumentam em favor da arte na escola. Vamos a um outro argumento, simples e inicial, porém crucial para compreendermos o sentido da arte na vida em sociedade. Uma vez articulada pelo professor, as diferentes linguagens artísticas possibilitam-nos diversas leituras de mundo imbricadas entre si e em movimento dialógico constante entre pessoas, tempos e espaços. As diversas leituras de mundo via diferentes linguagens não somente a verbal possibilitam-nos conhecer, reconhecer, re-significar e expressar o sentido da vida em sociedade. Cada linguagem artística que conhecemos possibilita-nos um novo olhar e uma nova vivência de mundo. As linhas, cores, texturas, volumes propostos pelas artes visuais abrem-nos para leitura dos mundos de imagens em que vivemos. As formas, a ocupação do espaço, as qualidades do movimento presentes na linguagem da dança, abrem as portas para o corpo no mundo, para o ser corpóreo que somos. Os timbres, ritmos, melodias da linguagem da música, por sua vez, abrem as janelas dos sons, das diversas paisagens sonoras que compõem o nosso cotidiano. Pelo teatro, abrimos as portas das relações pessoais, das personagens, do texto, do espaço cênico. A visualidade, a sonoridade e forma das palavras tomam novo sentido ao estudarmos a linguagem da poesia. Ou seja, por intermédio do conhecimento e vivência das linguagens artísticas, tornamo-nos seres mais amplos, mais profundos, mais complexos, mais múltiplos e, conseqüentemente, mais conscientes e compromissados. Mas a quem interessa tudo isso? Sim, eis mais uma pergunta justa. Ou o professor de Arte está interessado em tudo isso, ou não está ensinado arte. É importante termos certeza de que toda a potencialidade do ensino de Arte só se tornará real se o professor de Arte acreditar que pode atuar como agente transformador dos/com seus alunos e conseqüentemente da sociedade em que vivem e que esse é um dos focos essenciais do exercício da sua profissão. Caso contrário, continuaremos sendo professores dispensáveis colando bandeirinhas para a festa de São João. Isabel Marques e Fábio Brazil, professores e artistas, dirigem o Caleidos Arte e Ensino em São Paulo, capital, ministrando cursos e prestando assessoria a secretarias de educação, escolas públicas e privadas nas áreas de dança e poesia. |
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