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Quem
não sabe ensina?
Aquilo a que assistimos hoje na escola como reprimenda aos professores ousados muitas vezes não passa de uma reprodução, na escola, do processo de marginalização do artista em sociedade.
O Brasil
é um país em cujo cotidiano as manifestações
artísticas estão muito presentes; das festas populares
- que integram as artes cênicas, visuais e a música - aos
shows abertos; dos bailes das periferias às exposições
e mostras de arte; da grandiosidade dos desfiles de carnaval ao hábito
de tocar e cantar nos encontros com amigos e familiares; do rádio
ou som sempre ligados às atrações veiculadas pela
mídia televisiva. Nossos alunos estão sempre expostos
a diversas manifestações artísticas. Um dos papéis
essenciais da escola é justamente abrir vias para que os alunos
melhor compreendam, desfrutem e tenham experiências estéticas
significativas diante dessas ofertas. É papel do professor e
da escola oferecer aos alunos possibilidades de criar e recriar relações
com a arte produzida e manifestada em sociedade. É principalmente o professor de Arte que tem entre suas funções abrir as portas e construir para/com os alunos pontes para o mundo da arte lá de fora, pontes de mão dupla, ou seja, articulando a arte lá de fora com o projeto e o planejamento da escola e do professor. Para que isto aconteça, é crucial que o próprio professor não se isole, mas seja ele mesmo um freqüentador, um fazedor, um fã da arte. Infelizmente, não são poucos os professores de Arte que só pisam em um museu quando estão levando seus alunos; ou mesmo aqueles que se satisfazem somente com o ensino superficial e linear da história da Arte em suas aulas, sem jamais aprofundar a apreciação, pegar em um pincel, mover um dedo ou apurar os ouvidos. Muitos professores não sentem falta, não se frustram e não se incomodam com a falta de arte em suas vidas. Como então, compartilhar, ensinar, produzir, compreender arte com seus alunos na escola? O professor que respira arte, ou seja, que sabe arte em seu corpo, que se transforma ao ser tocado por uma obra, que curte sujar as mãos, por a mão na massa, soltar o gogó e pisar no palco, com certeza terá um trabalho diferenciado com seus alunos, poderá compartilhar com eles o universo da arte em seus aspectos mais amplos. O professor que vibra ao descobrir um novo livro, um novo artista, um novo museu, que vibra ao descobrir outra faceta de seu artista predileto, ou ao revisitar com os alunos seu repertório de obras conhecidas, sem dúvida terá muito mais a trocar e a ensinar a seus alunos, construindo assim conhecimento significativo. Ou seja, é essencial que o professor assuma também, sem susto e sem medo, sua função de artista, de produtor, de pesquisador e de apreciador de arte. Esta é uma das grandes riquezas a serem vividas e discutidas com os alunos. É importante que o professor de Arte torne-se um professor-artista, e não um mero passador de técnicas ou informações. Não precisamos necessariamente sair da escola, chamar artistas ou espetáculos de fora, mostrar vídeos e gravuras para compartilharmos com os alunos o mundo da arte. Não queremos com isso dizer que estas atividades não sejam importantíssimas, muito pelo contrário, elas são fundamentais para o ensino de Arte, mas trataremos deste tema em outra oportunidade. Queremos enfatizar aqui a necessidade, a propriedade, a maravilha do professor ser ele mesmo um pedaço do mundo da arte que adentra os muros da escola. Por que não montar uma coreografia para dançar e discutir com seus alunos? Por que não trazer suas pinturas para a sala de aula e relê-las? Por que não tocar uma peça ou cantar uma canção para que os alunos também entrem em cena? Por que não recitar um poema ou fazer uma leitura de um texto teatral para os alunos? Claro, a sala de aula não pode virar palco de exibicionismo por parte do professor, menos ainda um lugar de depósito das frustrações do mesmo. A sala de aula deve ser um lugar significativo de conhecimento de arte. Muitas vezes, no entanto, são justamente os ditos menos artistas, os artistas frustrados, os artistas medrosos ou ainda os alunos que foram taxados nos cursos superiores de não talentosos que resolvem abraçar a função do ensino. Será que isso tudo verdade? Só quem não sabe, ensina? Por que não são reconhecidos, nos cursos superiores, os alunos que têm seu talento artístico voltado para o ensino? Precisamos, ao contrário do que tem sido feito, valorizar os professores que não se afastaram do mundo da arte, valorizar os profissionais que têm este talento híbrido: artístico e pedagógico. Estes profissionais muitas vezes não encontram espaços de trabalho, pois não são artistas convencionais nem professores tradicionais, acabam rechaçados tanto no mundo da arte quanto no mundo da escola. Não são poucas as escolas que temem que os professores-artistas influenciem negativamente os alunos com rebeldia, desorganização, irresponsabilidade, bagunça e desrespeito às normas estabelecidas. Aquilo a que assistimos hoje na escola como reprimenda aos professores ousados muitas vezes não passa de uma reprodução, na escola, do processo de marginalização do artista em sociedade. É importante ressaltar que aqueles que efetivamente contaminam os alunos com irresponsabilidade e rebeldias tolas não estão sendo nem professores nem artistas, mas sim distorcendo o ensino de arte e reproduzindo um estereótipo também tolo a respeito do artista. É preciso que as escolas não expulsem os professores-artistas, ousados em suas práticas, não os taxe de excêntricos malucos, não punam suas iniciativas. As escolas, muitas vezes não compreendem ou tem medo de compreender - o papel transformador que o ensino de arte vivenciado, pensado, respirado e compartilhado com professores-artistas pode exercer para os alunos na sociedade em que vivemos. Isabel Marques e Fábio Brazil, professores e artistas, dirigem o Caleidos Arte e Ensino em São Paulo, capital, ministrando cursos e prestando assessoria a secretarias de educação, escolas públicas e privadas nas áreas de dança e poesia. |
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