O que se espera da Arte?

O ensino de Arte nas escolas vive sobre um terreno perigoso e movediço. O que caracteriza a escola tradicional não diz respeito ao universo da arte; o que caracteriza o fazer da arte é muitas vezes estranho ao mundo escolar. Regra e criação, tradição e invenção, burocracia e transformação, resultados numéricos e possibilidade de sentido podem conviver num mesmo espaço?


Isabel Marques e Fábio Brazil *

Prêmio, castigo, cura, lazer, obrigação... os trabalhos de Arte nas escolas muitas vezes passam por uma dessas instâncias antes de chegar aos alunos. Mesmo ONG’s e outras instituições que colocam a arte como carro-chefe de suas propostas de atuação em comunidades carentes, na maioria dos casos, apenas hipertrofiam uma dessas instâncias que nascem nas salas de aula pelas mãos dos professores de Arte ou por pedagogos trabalhando o conteúdo de Arte.
Prêmio por bom comportamento: “podem colorir o desenho”, “fulano pode participar da Quadrilha”, “vocês vão ter música nos intervalos”. Castigo por mau comportamento: “todos vão ter que decorar um poema de Casemiro de Abreu para a próxima aula” ou “vão ter que se apresentar de qualquer jeito, na frente de todo mundo”. Cura: “O teatro liberta os tímidos, a dança conserta a postura, a música acalma os impossíveis, colorir faz todos ficarem tranqüilos”. Lazer: “Quem já terminou a lição de Matemática, pode colorir um desenho do livro”. Obrigação: “Isso é lição, vale nota, viu?” - Qual professor de Arte não disse ou ouviu colega proferir uma dessas idéias?

Importante pensarmos que cada uma dessas idéias e comportamentos está revelando um determinado entendimento sobre Arte e o que se espera dela no ambiente escolar. Seja no microcosmo da sala de aula, na atuação de uma ONG ou ainda no macrocosmo das Secretarias de Educação - que criam programas “com arte” para abrigar os alunos-problema dentro ou fora do período escolar -, espera-se do ensino de Arte algo a que ele não visa diretamente e com que não pode se comprometer.

Uma primeira questão a ser levantada diz respeito à possibilidade de outra disciplina ter o mesmo tratamento, sofrer as mesmas noções, ser mostrada com as mesmas nuances, a Química se prestaria a isso? Excetuando a Educação Física, acreditamos que nenhuma outra disciplina possa ser tão descaracterizada como área do conhecimento.

Arte e Educação Física permitem esse tipo de idéias por lidarem de forma muito concreta com dois elementos ainda estranhos ao mundo escolar: o corpo e o prazer. De modo geral, as escolas e outras instituições paralelas ou substitutivas delas têm grandes problemas para lidar com o corpo e com o prazer, daí a Arte virar prêmio, castigo, cura, lazer, obrigação e não forma de conhecimento. Ou seja, a Arte como linguagem muitas vezes apenas tangencia os programas escolares e os projetos sociais cujos objetivos não vislumbram a questão do conhecimento específico na área de Arte.

Sabemos que a arte tem de fato grande possibilidade de contribuir para a formação daquilo que costuma ser chamado de “bom comportamento”. Disciplina, concentração, dedicação, envolvimento, participação coletiva, aproximação e respeito com o outro, elevação da auto-estima, responsabilidade pelos resultados são atitudes e valores presentes no fazer da arte, são essenciais no fazer da arte, mas não podem ser tomados como fim último do ensino de Arte.

A presença da arte na escola serve principalmente ao conhecimento, à percepção e à experimentação das diversas linguagens, suas possibilidades de produzir sentido estético e suas relações com o meio social em que estão inseridas. Dança, poesia, teatro, artes visuais e música são visões de mundo, formas de pensar, produzir e discutir idéias, sentidos e sensações no mundo.

O conhecimento e a experimentação das linguagens da dança, da poesia, do teatro, das artes visuais e da música não existem no currículo para promover o “bom comportamento”, mas sim para que os alunos tenham a oportunidade de criar, apreciar e contextualizar possibilidades artísticas. Criar traz a oportunidade de transformar, experimentar, sentir prazer; apreciar traz a possibilidade de estabelecer relações além das comerciais e utilitárias; contextualizar traz a possibilidade de conhecer idéias, culturas e histórias – como nos ensina há anos Ana Mae Barbosa.

A disciplina, a concentração, a dedicação, o envolvimento, a participação coletiva, a aproximação e respeito com o outro, a elevação da auto-estima e a responsabilidade pelos resultados estarão presentes somente se o professor e os alunos estiverem envolvidos em estudar e produzir arte, são efeitos paralelos ao ensino de Arte como também podem e devem estar presentes no ensino da Química, da Matemática, da Gramática etc.

O ensino de Arte nas escolas vive sobre um terreno perigoso e movediço. O que caracteriza a escola tradicional não diz respeito ao universo da arte; o que caracteriza o fazer da arte é muitas vezes estranho ao mundo escolar. Regra e criação, tradição e invenção, burocracia e transformação, resultados numéricos e possibilidade de sentido podem conviver num mesmo espaço?

Tradicionalmente, do artista, espera-se que crie, descubra, invente, transforme, transgrida, articule, inove, imagine e sonhe; do professor, espera-se que sistematize, estabeleça processos de ensino-aprendizagem, delineie e persiga objetivos claros, escolha metodologias teoricamente sustentáveis e avalie objetivamente os resultados.

Em outras palavras, por quê o artista é o “legal” e o professor o “chato”? Por quê o artista é o “descolado” e o professor o “sistemático”? Por quê o artista é o “transado” e o professor o “careta”? Para que o ensino de Arte encontre seus objetivos e seja realmente significativo para os alunos, não será preciso transformar essa visão tradicional sobre o professor?

Também tradicionalmente, do aluno, espera-se que ouça, execute, faça o certo e determinado, memorize, siga as normas estabelecidas, que aprenda e não retorne. Ao contrário disso, do apreciador de arte, espera-se que assista, escute, veja, dialogue com a arte, emocione-se, envolva-se, exercite sua sensibilidade, desenvolva múltiplas formas de compreensão e, principalmente, que retorne. Por que optamos em trabalhar com alunos tradicionais, cansativos, impossíveis, desgastantes, ao invés de buscarmos neles apreciadores da arte?

Entendemos que o grande desafio que está posto aos responsáveis pelo ensino de Arte é como somar ao trabalho do professor responsável e consciente de sua função pedagógica o sonho, a criação, a transformação e a inovação que o artista sugere. Do mesmo modo, priorizar a escuta, a pesquisa, o diálogo, a emoção, a reflexão do aluno em relação à arte é somar a seu papel de aluno a atitude de apreciador de arte. Esse desafio diz respeito aos professores, Secretários, voluntários, coordenadores, pedagogos e gestores de ONG’s.

Sabemos que essas transformações dependem de grandes transformações sociais e políticas das quais estamos ainda distantes. No entanto, acreditamos que o início desse processo de transformação pode realizar-se no microcosmo da sala de aula pelo professor de Arte.

Se o professor de arte estiver envolvido com a arte, se ensinar produzindo arte junto aos seus alunos, se freqüentar arte e sensibilizar-se com ela, se estudar e pesquisar arte e mantiver vivas as suas múltiplas capacidades de compreensão, um passo terá sido dado. Esse passo envolve disciplina, concentração, dedicação, envolvimento, participação coletiva, aproximação e respeito com o outro, elevação da auto-estima, responsabilidade pelos resultados. É um pequeno passo, mas definitivo e decisivo para o próprio professor, para os seus alunos e possivelmente para toda a sociedade.